domingo, 19 de fevereiro de 2017

NÃO FOI UM DOMINGO QUALQUER...

Seria um domingo qualquer, desses que se apresentam iguais a tantos outros: preguiçosos, sem aventuras ou lembranças afetivas, contudo meu filho Caio, jornalista e o melhor zagueira que já vi jogar, me convidou para assistir um jogo de futebol do seu antigo time.

 Bem, sem grandes expectativas fomos à Hípica e ao chegarmos pudemos perceber que seria um dia memorável.
Seus amigos Thiago Albernaz, o Tiba, e Rodrigo Curti, o Digão, dentre outros, conseguiram reunir quase todos os meninos que viveram aventuras esportivas nos diversos campeonatos ou copas em Campinas, na região e até na Europa, isso dos cinco ou seis anos de idade até os dezessete ou dezoito anos...

Além dos meninos (hoje adultos, profissionais, alguns maridos ou pais...), que alegraram tanto nossos finais de semana com seus sonhos, revelados em sorrisos e abraços generosos, estavam lá alguns pais, mães, irmãos e professores.

Não havia quem não estivesse muito emocionado e sensível a lembranças que alimentam e dão sentido à alma e à vida.
Dito isso gostaria de falar de uma virtude fundamental: a amizade.

Aristóteles nos lega a lição de que a amizade é essencial, em dois livros sublimes da “Ética a Nicômaco”. Na obra ele nos convida a procurar o bem e indagar o que ele é. Afirma que se existe uma finalidade para tudo o que fazemos, a finalidade deve ser o bem. A melhor função do homem é a vida ativa que tem um princípio racional. Devemos compreender o bem como atividade da alma e o resultado é a felicidade. É na amizade que encontramos o caminho do bem e da felicidade.

Sem o exercício da amizade a vida seria um erro e um grande vazio, seria com a polidez: necessária, um pré-requisito, mas um nada em si. A amizade é condição da felicidade, refúgio contra a infelicidade, ao mesmo tempo útil, agradável e boa.

A amizade, segundo Aristóteles, é “desejável por ela mesma” e “consiste antes em amar que em ser amado”. A amizade seria uma espécie de igualdade, que a precede ou que ela instaura. Valeria mais que a justiça, e a inclui, que é ao mesmo tempo sua mais elevada expressão e sua superação.

Amizade seria comunidade, partilha, fidelidade, afinal os amigos se rejubilam uns aos outros, e com sua amizade em si, sem qualquer razão outra que não ela própria.

É verdade que não se pode ser amigo de todos, nem da maioria, mas os amigos nos emprestam um sentido de completude, de inafastável importância, amizade é uma virtude, um presente, uma forma de amar.

Mas quem são nossos amigos?

Bem, falando sobre o sentido profundo da amizade, o Papa Francisco afirmou recentemente que nunca teve tantos “amigos” como agora, todos querem ser amigos do Papa... Mas a amizade é algo muito sagrado, um amigo não é um conhecido, com quem se tem uma conversa, um amigo é um irmão que tudo compreende, repreende, perdoa e, de mãos dadas, ajuda na reparação que segue-se ao arrependimento; um amigo é um irmão que presenteia com um abraço discreto, quase invisível, nas nossas vitórias e nos acolhe às escancaras nos nossos tropeços. Francisco nos adverte ainda para o sentido utilitário das amizades, de aproximar-se de uma pessoa para tirar proveito. Isso, segundo ele, machuca a alma; usar as pessoas ou ser usado por elas é dolorido. O que nos vale é amizade resiliente, já a amizade interesseira (experiência pela qual todos passamos) é caminho de aprendizado. A amizade é um acompanhar a vida do outro a partir de um pressuposto tácito, qual seja: de que as verdadeiras amizades nascem espontaneamente e perduram, não obstante o tempo.
Nesse tempo em que impera a cultura da inimizade, contra a qual é preciso trabalhar e substituir por uma cultura de paz.
Já a Professora Luciana Karine de Souza, doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pesquisadora no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais argumenta no seu “Educação para a paz e educação moral na prevenção à violência[1] que a promoção da maturidade de julgamento moral por meio de debates de dilemas morais favorece o surgimento do raciocínio crítico que possibilita o questionamento de situações injustas, inclusive no que tange à violência, seja ela direta ou estrutural e indica a utilização de dilemas morais com conteúdo relacionado à busca da paz em diferentes níveis, como o escolar, o social e o internacional, considera ainda que na compreensão dos fenômenos de paz e de violência estão implícitas as normas, valores e experiências compartilhadas por uma dada cultura, o questionamento dessas normas e valores pode levar a mudanças na compreensão desses fenômenos. É um ensaio fundamental, mas talvez tenha faltado dizer que a educação para a paz pode ter início com um abraço, uma gargalhada ou no silêncio fundamental de um amigo que nos ouve, não julga e tanta paz empresta a essa nossa breve aventura.

Obrigado à sorte, força divina reguladora dos acasos, e aos amigos Tiba, Digão, Ticelli, aos irmãos Raul e Renê, Braga, Caetano, Mineiro, Gerba, Zini, Mauricio, Murilinho, Lê, Déco, Caiosa, Professor André e aos pais e mães, por terem transformado um domingo qualquer em lembrança afetiva e perene, obrigado pelo abraço, pela gargalhada e por ouvirem em silêncio generoso tudo quanto foi ou será dito.







[1] http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752007000200008

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