domingo, 7 de abril de 2013

ÓDIO DE CLASSE?



"Quando, enfim, os bacharéis mais reacionários ocuparam o poder com os militares, coube-lhes encontrar as fórmulas jurídicas para defender o estupro do Estado de Direito" (Mauro Santayana)

A página 2 do CORREIO trouxe uma matéria assinada pelo Deputado Carlos Sampaio (PSDB) na qual ele faz criticas ácidas ao ex-presidente Lula. É muito triste ver um Deputado Federal da minha cidade, um pontepretano, por quem nutro afeto e procuro manter uma relação fraterna, filho de um homem admirável, prestar-se a "jogar o jogo" dos setores mais conservadores e atrasados desse país.  Muito triste!
Quando falo em “setores conservadores” me refiro aos mesmos setores que no passado "colaram" em Getulio, JK, João Goulart o rotulo de "corrupto" para logo depois darem golpes à democracia. Esse é o jogo da elite: o golpe.
Mas por quê? Quais interesses esses senhores defendem?
Talvez os golpistas e seus interlocutores estejam irritados e se reúnam porque o governo brasileiro distribui renda, como no sistema escandinavo, a fim de sustentar um ainda tímido, mas necessário, “welfare state”, como fez Lula e faz Dilma com o Bolsa-Família. É contra políticas públicas como essas reúnem-se bacharéis e banqueiros, políticos, alguns jornalistas e inocentes úteis.
Antes de partir para Portugal o Rei D. João VI teria dito seu filho que tomasse ele a coroa “antes que algum aventureiro lance mão” repetiu-se isso irrefletidamente como algo positivo o longo do tempo, desde os bancos escolares. Mas quem eram os aventureiros? Os aventureiros éramos nós, o povo brasileiro. A gente como Tiradentes, Simon Bolívar, Artigas, Sucre, San Martin O´Higginsque é a quem referiu-se D. João VI. Tiradentes e Simon Bolivar foram heróis que lideraram revoluções de independência nos seus países, expulsando os colonizadores em processos articulados dos países da região. Por conta dessa decisão da elite tivemos dois monarcas descendentes da família imperial portuguesas, ao invés de uma República, perdemos décadas de avanço institucional e atrasou-se a construção de um Estado Nacional independente, os nossos colonizadores não foram expulsos, mantiveram-se “pessoas de bem” e influenciam até hoje o país. Talvez esse tenha sido o primeiro pacto de elite da nossa história, no qual as elites mudaram a forma da dominação, para imprimir continuidade a ela, sob outra forma política. Naquele 1822 a monarquia ganhou quase sete décadas de sobrevida.

Ai vem o segundo pacto da elite: a República foi proclamada como um golpe militar, que a população assistiu “bestializada”, segundo um cronista da época, sem entender do que se tratava – o segundo grande pacto de elite, que marginalizou o povo das grandes transformações históricas.

Outros pactos se seguiram a esses dois (a História está ai para ser conhecida e compreendida, vou escrever sobre eles um dia) e todos eles buscaram atender os interesses da elite nacional, conservadora, preconceituosa e sem qualquer compromisso além da manutenção de seus privilégios.

Estamos vivendo mais um pacto da elite que busca, com o diligente concurso de parcela da mídia, tem desqualificar o governo de esquerda, suas realizações e conquistas e criminalizá-lo.

Mas voltemos a 1955... JK candidatou-se para suceder Vargas, e elegeu-se em três de outubro de 1955 e a empossou–se em 31 de janeiro do ano seguinte, mas JK teve de lidar com o ódio que a UDN - União Democrática Nacional endereçara a Vargas (UDN que como o PSDB representa interesses distantes dos nacionais e populares). A UDN constituía-se do velho resíduo do bacharelismo nacional, de origem oligárquica, que perdera sua posição hegemônica na sociedade, a partir da Revolução de 30, mais ou menos como o PSDB hoje.
O “corrupto” Juscelino sofreu todas as perseguições conhecidas. Foi humilhado por interrogatório movido por oficiais inferiores.
Reproduziu-se com JK, o que pretenderam os golpistas contra Getúlio, ao instaurar Inquérito Policial Militar em uma dependência da Força Aérea: a fim de o interrogar, julgar e condenar o Presidente - também sob o pretexto da corrupção – com o aplauso da UDN.
Essa gente levou Getúlio ao suicídio, apoiou o golpe militar que cassou e provavelmente matou Jk e João Goulart. Pretendem fazer o mesmo com Lula? É nesse contexto que deve ser compreendido, inclusive, o PC 470 que tramitou no STF.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

"Terra em transe"


Num dado momento de sua vida o cineasta Glauber Rocha, baiano de Vitória da Conquista, venceu um concurso e obteve uma bolsa para estudar na Universidade de Sorbonne em Paris para escrever uma tese sobre o cinema no 3º. Mundo.

Segundo ele próprio “por falta de vocação acadêmica” nunca escreveu a tese, mas fez muitas reflexões.
Glauber, vencedor de três Palmas de Ouro em Cannes, era um gênio inquieto e até hoje incompreendido que numa dessas reflexões parisienses faz um questionamento que, na minha maneira de ver, é meramente retórico, ele se pergunta (e nos pergunta): "Um pais subdesenvolvido economicamente pode produzir um cinema esteticamente desenvolvido? Porque no terceiro mundo a maioria dos artistas, intelectuais e pessoas que se ocupam de arte são profundamente colonizadas. Ainda julgam a arte e a realidade a partir de uma informação filosófica europeia e americana: mesmo as pessoas revolucionárias são colonizadas mentalmente.".
Glauber na verdade propõe que gritemos “independência ou morte” ao processo de colonização estética ao qual estávamos e estamos submetidos até hoje. Não é incomum ouvirmos de pessoas “bem formadas” referências elogiosas à Europa e aos Estados Unidos e criticas quase sempre rasas, ao Brasil e à América Latina e como alertou Glauber “mesmo as pessoas revolucionárias são colonizadas mentalmente" julgam a realidade a partir de outro hemisfério... Temos de superar isso. Como? Reconhecendo valor no Brasil, em sua História, suas cores, seu som, sua forma peculiar de transformar e transformar-se, de superar e vencer desafios, de crescer e de nunca desistir.
A própria vida de Glauber é exemplo disso. Glauber Rocha realizou vários curtas-metragens, ao mesmo tempo em que se dedicava ao cineclubismo e fundava uma produtora cinematográfica, um lutador. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) são três filmes paradigmáticos, nos quais uma crítica social feroz se alia a uma forma de filmar que pretendia cortar radicalmente com o estilo importado dos Estados Unidos. Essa pretensão era compartilhada pelos outros cineastas do Cinema Novo, corrente artística nacional liderada principalmente por Rocha e grandemente influenciada pelo movimento francês Nouvelle Vague e pelo Neorrealismo italiano. Glauber Rocha foi um cineasta controvertido e incompreendido no seu tempo, além de ter sido patrulhado tanto pela direita como pela esquerda brasileira. Ele tinha uma visão apocalíptica de um mundo em constante decadência e toda a sua obra denotava esse seu temor. Para o poeta Ferreira Gullar, "Glauber se consumiu em seu próprio fogo". Com Barravento ele foi premiado no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary na Tchecoslováquia em 1963.
Um ano depois, com “Deus e o diabo na terra do sol”, ele conquistou o Grande Prêmio no Festival de Cinema Livre da Itália e o Prêmio da Crítica no Festival Internacional de Cinema de Acapulco.
Mas foi com “Terra em Transe” que tornou-se reconhecido, conquistando o Prêmio da Crítica do Festival de Cannes, o Prêmio Luis Buñuel na Espanha, o Prêmio de Melhor Filme do Locarno International Film Festival, e o Golfinho de Ouro de melhor filme do ano no Rio de Janeiro.
Outro filme premiado de Glauber foi “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, prêmio de melhor direção no Festival de Cannes e, outra vez, o Prêmio Luiz Buñuel na Espanha.
Glauber venceu criando uma estética e uma linguagem que negava a estética do cinema dos colonizadores. O mundo já reconhece esse nosso valor, falta uma parcela de brasileiros reconhecerem.