domingo, 22 de janeiro de 2017

FAMÍLIA EM TRANSFORMAÇÃO

Tenho a sorte de vir de uma família grande e muito divertida, onde há pontepretanos, bugrinos, corintianos, são-paulinos e palmeirenses; há católicos, protestantes, espiritas e ateus; na paleta de cores das convicções políticas há de tudo também... Mas nossas diferenças nunca nos impediram de conviver, sonhar e amar, o que nos fortalecia eram essas diferenças.

Minhas irmãs e eu tínhamos trinta e quatro primos, quase três dúzias de tios e tias, além das avós, avô, tias e tios-avôs e até tios-bisavós.

As casas de nossas avós eram locais mágicos e cheirosos, para onde íamos naqueles domingos após a missa do Padre Geraldo Azevedo na Igreja do Carmo.

O Natal e a Pascoa sempre foram datas tão especiais quanto os aniversários das avós e avô e nesses dias nos encontrávamos em sorrisos infinitos e podíamos brincar e sonhar.

Enfim, acredito que a família é instituição fundamental para a sobrevivência e desenvolvimento dos indivíduos e da humanidade. Se não existe a família, a sobrevivência cultural da humanidade corre perigo.

E uma família precisa sonhar e compartilhar os sonhos.

Foi através do convívio lúdico com minhas irmãs, primos e primas que aprendi que sonhos são dimensão infinita e necessária, caminho onde o impossível não tem espaço. Sem sonhos não há crescimento, amadurecimento ou movimento.
No convício familiar, onde há amor genuíno, é mais vigorosa a possibilidade do sonho, o sonho compartilhado é educativo, nos afasta da lógica nefasta do utilitarismo e oferece um canal para a realização dos nossos desejos.

O desenho acima é de uma família, como tantas outras, composta de pai e mãe, seus filhos e seus sonhos. Mas, e as novas famílias nos seus desenhos atuais? Elas podem amar, sonhar e educar? Segundo o Papa Francisco, em discurso à União Internacional de Superiores Gerais, a igreja deve reconsiderar a nossa postura em relação aos filhos de casais homossexuais e de pais divorciados.

Francisco afirmou que a estrutura familiar está mudando na atualidade.

O reconhecimento dessa mudança reconcilia a igreja com a realidade e isso é fundamental para que a hipocrisia, algo nada cristão, deixe de fundamentar a reflexão e de orientar nossas ações em relação à família que se transforma, mas onde também é possível compartilhar os sonhos e amar.

Sobre os divorciados o papa Francisco aconselhou àqueles que se divorciaram fazer um exame de consciência sobre como agiram com os filhos quando o casamento entrou em crise, se é possível tentar uma reconciliação, quais consequências um novo casamento pode ter na família, etc., mas defendeu o acolhimento deles pela igreja e considerou a possibilidade de os católicos que se casaram novamente participarem dos sacramentos, pois as pessoas divorciadas que vivem uma nova união são parte da Igreja e não estão excomungados, pois ninguém pode ser condenado para sempre, pois esta não é a lógica do Evangelho.  
As novas famílias, como a dos divorciados, devem ser integradas às comunidades cristãs e para isso é preciso analisar que várias formas de exclusão são ultrapassadas, pois "os efeitos de uma regra não podem sempre ser os mesmos".  
Parte da igreja católica, frequentemente em conflito com lésbicas, gays, bissexuais e a comunidade transgênero em relação ao casamento homossexual, deveria ouvir mais o Papa. Francisco, apesar de negar a possibilidade do casamento gay, recentemente ele declarou: "Se alguém é gay e busca o Senhor com sinceridade, quem sou eu para julgá-lo? ".

Na sua Exortação apostólica “Amoris laetitia - A alegria do amor”, que trata do amor na família,  afirma que “um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são”, ou seja,  é salutar aos cristãos prestar atenção à realidade concreta, porque os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história através dos quais a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profundado inexaurível mistério do matrimônio e da família.


Enfim, sem escutar a realidade não é possível compreender nem as exigências do presente, nem os apelos do Espírito.

Sobre o fracasso

No capitalismo, somos culpados se não juntamos capital. O fracasso consiste em não ser sucesso nos negócios, nos estudos, na empresa, no consumo. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

“LULINHA”: SANTO OU PROFANO?


O título sugere, mas não pretendo escrever sobre teologia, até porque não tenho formação ou cultura para isso....
Trago à reflexão a injusta e criminosa campanha difamatória que viceja nas redes sociais contra os filhos do ex-presidente Lula, especialmente contra Fábio Luís, filho mais velho de Lula.
Esclareço que não acredito na existência de santos, no profano ou em demônios.
Os santos, que estariam junto de Deus aguardando a parusia (a segunda vinda de Cristo, conforme descrito pelo apóstolo Paulo) ou os demônios (por mais que eles estejam presentes em alguns textos apócrifos da tradição religiosa judaica ou no Novo Testamento, em João e Paulo) não pautam a minha vida ou minha fé.
Aliás, não vejo nenhuma grande importância no reconhecimento burocrático pelas igrejas daqueles que tiveram uma vida supostamente exemplar e que teriam exercitaram seus dons de forma justa e generosa, não vejo necessidade dessa declaração cartorial, pois a fé está acima dos símbolos, imagens, rituais ou declarações cartoriais e selos papais.
E por não acreditar nem em santos, nem em demônios também refuto de plano os argumentos que demonizam ou santificam pessoas que, como cada um de nós, em sua trajetória pessoal, social e profissional erram e acertam.
Fato é que desde que a Telemar comprou debentures de empresa que fundou e que preside (e que depois convolou tais títulos em ações da companhia) o biólogo e empresário Fábio Luís Lula da Silva vem sendo implacavelmente investigado pela Receita Federal, Ministério Público, desafetos políticos de seu pai, etc.
Mas nesses quase doze anos nada, absolutamente nada foi encontrado que confirmasse os mitos urbanos amplamente difundidos na web de que ele é sócio da poderosa JBS, que sobrevoa suas fazendas de helicóptero, que tem uma ilha em Angra dos Reis, abastece iates e é possuidor de fortuna “incalculável”, muito ao contrário, um relatório da Polícia Federal anexado aos autos da Operação Lava Jato aponta que a evolução patrimonial de Fábio é compatível com suas finanças, apesar de destacar a distribuição de lucros atípica da empresa G4, atípica, mas não ilegal.
Essas ilações e outras tantas seguem sendo o que são, lendasurbanas, mitos urbanos ou lendas contemporâneas, seguem sendo pequenas histórias de caráter fabuloso e sensacionalista, amplamente divulgadas de forma oral, por e-mails, pelas redes sociais e por parte da imprensa.
A verdade é que a divulgação dessas mentiras busca atingir Lula e por isso que constituem mais um tipo de folclore moderno, são crime e corroem vidas de pessoas que não são santos, profanos ou demônios.

Os filhos do presidente Lula são seres humanos, são pais e maridos por isso, até prova em contrário, merecem a presunção da inocência e o respeito devido a todos nós.  

sábado, 7 de janeiro de 2017

A BARBÁRIE BRASILEIRA.


“(...) os governos do Brasil democrático tomaram uma única medida, a mesma que o presidente Temer anunciou há pouco: construir novas cadeias. ” (Frei Beto)

Eu entendo pouco ou quase nada sobre o sistema prisional ou carcerário, mas os acontecimentos recentes no Amazonas exigiram uma pesquisa sobre o tema. Pretendo compartilhar minha inquietação e aquilo que pesquisei sobre o tema.

As autoridades não podem alegar surpresa. Uma primeira pesquisa trouxe informação de outubro de 2016 de que o crime estaria em guerra, pois as maiores facções brasileiras romperam e as rebeliões eram um aviso de que a selvageria estava solta[1].

Tais informações estão contidas em matéria jornalista da Revista Exame, portanto a barbárie que ocorreu no Amazonas pode ser tomada como tragédia anunciada. E mais, ocorreu na região Norte mas poderia ter acontecido em qualquer das regiões do país.

Relatório da ONU. Depois encontrei informação de que no início do ano passado Juan E. Méndez, especialista de direitos humanos da ONU sobre tortura, criticou a prática frequente de tortura e maus-tratos nos presídios e delegacias brasileiras e foi além, apontou a existência do que chamou de “racismo institucional" do sistema carcerário do país, no qual quase 70% dos presos são negros.

O documento foi apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, com sede em Genebra e decorre de visita presencial de Juan Mendez aos Estados de São Paulo, Sergipe, Alagoas e Maranhão de 2015 a convite do governo brasileiro.

Ele visitou presídios, delegacias e instituições socioeducativas para adolescentes, e se reuniu com autoridades e organizações da sociedade civil e denunciou o uso frequente da tortura e dos maus-tratos tanto no contexto do momento da prisão como no interrogatório feito pela polícia nas delegacias, assim como nas penitenciárias, seriam comuns chutes, agressões com cassetetes, sufocação, choques elétricos com armas ‘taser’, uso de spray de pimenta, gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e balas de borracha, abusos verbais e ameaças, tudo isso foi reportado como métodos frequentes utilizados pela polícia e agentes carcerários. 

Não é difícil concluir que sob essas condições a tensão nos presídios é permanente.
Além do racismo institucional e da pratica de tortura há a superlotação endêmica nos presídios. O Brasil seria o terceiro país com a maior população carcerária per capita do mundo, o equivalente a 193 pessoas para cada 100 mil habitantes. A única política pública que existe é a construção de presídios, quando uma política pública responsável deveria preocupar-se com a redução da população carcerária.
E mais, é altíssimo o número de detentos sem julgamento (40% do total) e com a alta incidência de presos por tráfico de drogas (27% do total), esse é um dado a ser considerado e sobre o qual autoridades e entidades sociais devem refletir e propor caminhos.

Curiosamente o relatório dá conta que nos presídios com serviços parcialmente ou totalmente terceirizados, não se verificou problemas como superlotação nem condições precárias (mas não é o caso de do Complexo Penitenciário Anísio Jobim no Amazonas, que abriga quase o triplo de presos que sua capacidade).

O relator afirmou ser cético em relação aos presídios privatizados, pois a privatização de presídios em outros países resultou em sérias violações aos direitos e as regras para prestação de contas no caso de má conduta de agentes não estatais podem ser confusas, e os serviços essenciais para os presidiários podem sofrer com as pressões para maximizar lucros.

E dentre outras tantas recomendações propôs a introdução de medidas efetivas de combate à superlotação, entre elas uma reforma nas leis de tráfico de entorpecentes com o desenvolvimento de padrões efetivos para determinar a posse de drogas com base em quantidades fixas, dentre outras tantas recomendações.


O que a sociedade e os governos têm feito? Nada. A sociedade e os governos não têm feito nada válido e eficiente.

A verdade é que não há, nem nunca houve no Brasil, debate válido acerca de uma política pública prisional, não houve nada além do que a construção de presídios.

Sistemas de poder antinômicos. Não desconsidero a existência de poder e sistema legal e ético antinômicos que coexiste com o nosso sistema constitucional e legal.

Essa antinomia deve ser reconhecida e compreendido antes de ser combatido com eficiência. 

A ONU e as regras mínimas para tratamento de prisioneiros. Há regras mínimas para o tratamento de prisioneiros.

Tais regras foram adotadas pelo 1º Congresso das Nações Unidas sobre Prevenção do Crime e Tratamento de Delinquentes, realizado em Genebra, em 1955, e aprovadas pelo Conselho Econômico e Social da ONU através da sua resolução 663 C I (XXIV), de 31 de julho de 1957, aditada pela resolução 2076 (LXII) de 13 de maio de 1977. Em 25 de maio de 1984, através da resolução 1984/47, o Conselho Econômico e Social aprovou treze procedimentos para a aplicação efetiva das Regras Mínimas.

Por isso os governos devem visitar as regras mínimas que a ONU apresenta, especialmente porque no atual sistema penitenciário não há efetiva ressocialização dos reclusos no Brasil e, s.m.j., esse seria o principal objetivo de o Estado manter o sistema penitenciário, tudo sem perder de vista a existência de poder e sistema antinômico, coordenado pelas facções, sistema que coexiste e colide com o nosso sistema constitucional e legal.



[1] http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/10/o-crime-esta-em-guerra-maiores-faccoes-brasileiras-romperam.html

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

PELA CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA SOCIEDADE.


Esses tempos de intolerância estão causando situações surreais em nosso cotidiano... A recente tragédia campineira, verdadeiro feminicidio é fruto desse tempo de intolerância, machismo e reflexo da inegável da inflexão conservadora que vivemos.

Sim a tragédia de Campinas é um feminicidio, pois o crime que vitimou a família e a cidade tem fundamento no ódio baseado no gênero, amplamente definido como o assassinato de mulheres.

Esse tempo de intolerância é percebido nos pequenos fatos do dia-a-dia. Uma amiga querida foi vitima de uma decisão colegiada num certo ambiente de convívio social e tal decisão é resultado desses tempos de desmedido "olho por olho", tempos em que a temperança e a pacificação nas relações são substituídas por relações e decisões belicosas, triste e desnecessariamente belicosas...

Vivemos na sociedade do cansaço como diz Leonardo Boff, na qual a aceleração do processo histórico e a multiplicação de sons, de mensagens, o exagero de estímulos e comunicações, especialmente pelo marketing pessoal e comercial, pelos celulares com todos os seus aplicativos, a superinformação das mídias sociais, etc., acabam até produzindo doenças, depressão, dificuldade de atenção e perda de sentido real da nossa existência.

Esses fatos nos transformam em vitimas desse verdadeiro fim dos tempos.

Penso que temos de lutar contra isso e ter bem claro que esses tempos de relações disciplinadas pelo Código de Hamurabi não nos servem, por isso temos de recuperar o tempo em que as relações pessoais eram reguladas pelas virtudes humanas e divinas, tais como a amizade, compreensão, justiça, amor, generosidade, temperança, honestidade, respeito, perdão etc.

E como fazemos isso? Vivendo tudo o que aprendemos em nossa caminhada, praticando as virtudes acima citadas e buscando a pacificação das relações com temperança, amizade e fundamentalmente a compreensão que fundamenta e possibilita o perdão.

Antigamente, eu já sou de “antigamente”, as pessoas conversavam entorno de uma mesa para, direta e pessoalmente, encontrarem solução fraterna para quaisquer questões, sem transformar todos os mal-entendidos em questões a serem apuradas "no rigor da lei"; as famílias se visitavam para lanches da tarde e, sempre fraternalmente, compartilhavam alegrias e inquietações. Esse compartilhar está distante de uma sociedade de relações virtuais ou liquidas como diz Bauman... Relações liquidas, amores líquidos e uma sociedade liquida.


É isso que penso: temos que semear e cultivar virtudes e não fomentar o tempo todo tensão ou declarar decisões que definirão quem está certo ou errado, pois a vida é uma experiência breve, mas muito boa quando se percebe que o que importa é o afeto genuíno entre as pessoas; o afeto e a boa educação são a porta de entrada para uma vida virtuosa e feliz. É isso que eu penso.