segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Um jogo mágico



Estamos a 500 dias da abertura da Copa do Mundo do Brasil. Não é incomum ouvirmos criticas de todo o tipo, com e sem fundamento. Mas futebol não é uma coisa boba, futebol é um jogo mágico, que encanta e apaixona gerações e a Copa do Mundo no Brasil poderá legar ao país muito mais que metros, VLTs, estádios, aeroportos reformados, etc..
Explico. Aqui em casa somos todos torcedores da Ponte Preta. Bem, quase todos, pois minha mulher é torcedora do nosso maior rival, o Guarani, fato que confere à nossa casa um caráter pluralista, democrático e deliciosamente conflitivo e beligerante em dias de derby.
O futebol é mais que um simples jogo, mais que uma mercadoria na lógica do sistema, o futebol e a paixão que o constitui são traço cultural informador de nossas vidas e disso devemos ter orgulho e podemos nos apropriar dessa força e fazer dela elemento de mudança e desenvolvimento.
Como? Integrando a paixão que as crianças, meninos e meninas têm pelo futebol, pelos seus clubes e pelos seus ídolos com a Educação formal e complementar e nesse tempo de Copa do Mundo isso me parece bastante pertinente.  
Ações integradas entre as secretarias de educação e de esportes dos municípios, dos estados e os respectivos ministérios podem fazer toda a diferença, podem trazer e manter nas escolas um contingente enorme de crianças e jovens estimulados pela possibilidade da pratica do futebol.
Penso que muitas crianças e jovens permaneceriam ou voltariam à escola se o futebol estivesse mais presente. Curiosamente no “país do futebol” poucas são as escolas que tem campos de futebol, por quê?
Durante toda a infância e adolescência meus filhos puderam praticar vários esportes, o fizeram de forma regular e complementar à atividade escolar, esportes coletivos e individuais e creio que isso foi fundamental na formação deles, mas foi o futebol que os arrebatou e é o futebol que eles praticam até hoje com os amigos do trabalho e do clube.
O futebol sempre terá suas particularidades se comparado com outras ações culturais, mas ele manifestação e ação cultural. Ele e tudo que o envolve de forma espontânea. Os aspectos sociais contidos na experiência de sua prática permitem uma boa análise sobre a identificação, a significação e até o valor que ele tem na vida de seus personagens, principalmente quando estes são os jovens.
O futebol é inegavelmente um fenômeno cultural caracterizado pela participação e integração de todos, independentemente de classe social ou econômica, só esse fato já o diferencia.
É no campo de futebol que ocorrem importantes trocas de valores e a interação entre todos que dele fazem parte e o vivenciam, cada um de uma forma e com um significado particular. Surgem a partir do “mundo do futebol” novos conceitos e fusões culturais, reinventando significados sociais e aproximando extremos que, se não fosse o futebol, dificilmente trocariam experiências e vivências.
Pode-se entender o papel do futebol como formador e gerador cultural a partir da fala do antropólogo Roberto DaMatta: “(…) O fato é que o futebol tem sido uma ponte efetiva (e afetiva) entre a elite que foi buscá-lo no maior império colonial do planeta, a civilizadíssima Inglaterra, e o povo de um Brasil que, naqueles mil oitocentos e tanto, era constituído de ex-escravos. Juntar brancos e negros, elite senhorial e povo humilde foi sua primeira lição. O futebol demonstrou que o desempenho é superior ao nome da família e a cor da pele. Ele foi o primeiro instrumento de comunicação verdadeiramente universal e moderno entre todos os segmentos da sociedade brasileira. Ele tem ensinado a agregar e desagregar o Brasil por meio de múltiplas escolhas e cidadanias.”. É isso.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A VENEZUELA É MAIOR QUE CHAVES.


A Venezuela vive um clima de angustia em relação às reais condições de saúde do Presidente Hugo Chaves, o qual não podendo tomar posse e fazer o juramento, na forma prevista na constituição daquele país, mediante juramento perante o congresso nacional teve validada sua posse pelo Tribunal Supremo de Justiça, o qual deu uma interpretação bastante elástica ao artigo 231 da Constituição Venezuelana, considerando que em caso de reeleição a formalidade não é fundamental.



O artigo 231 prevê que El candidato elegido o candidata elegida tomará posesión del cargo de Presidente o Presidenta de la República el diez de enero del primer año de su período constitucional, mediante juramento ante la Asamblea Nacional. Si por cualquier motivo sobrevenido el Presidente o Presidenta de la República no pudiese tomar posesión ante la Asamblea Nacional, lo hará ante el Tribunal Supremo de Justicia.”, considero bastante polêmica a decisão Tribunal Supremo de Justiça, mas ela tem caráter democrático.

Sem um pronunciamento do Poder Judiciário haveria uma situação de incerteza institucional, o que seria grave. E a decisão do Judiciário respeitou regras da democracia representativa e dá ao país vizinho tranquilidade e equilíbrio institucionais necessários. Essa decisão, contudo, não se sustentará se o afastamento do presidente se prolongar por muito tempo.

Não concordo com aqueles que chamam a decisão de "contorcionismo constitucional", o que configuraria um atentado ao Estado democrático de Direito, pois há centenas de milhares de venezuelanos nas ruas de Caracas a legitimar a decisão do Tribunal Supremo de Justiça. Ademais, é possível que o tribunal tenha informações seguras de que o presidente venezuelano vai recuperar-se, em sendo assim seria um verdadeiro golpe institucional uma decisão diferente da que foi tomada pelo Tribunal Supremo de Justiça, pois se a democracia não concebe que o detentor do poder não seja eleito, igualmente não tolera açodamento nesses momentos.

Acredito, contudo, que se o afastamento de Chaves prolongar-se muito a decisão não se sustentará e o Presidente da Assembleia deverá assumir o poder e convocar eleições dentro do prazo constitucionalmente previsto.

Simpatizo com a posição do cineasta Oliver Stone que voltou a criticar a  posição dos EUA face à Venezuela nos últimos anos, em particular o ter feito  do país sul-americano "um inimigo regional", ao mesmo tempo em que os meios  de comunicação social norte-americano tenham "ignorado a revolução social"  na América Latina. Nem a Venezuela, nem Hugo Chaves são inimigos regionais, isso é uma bobagem meramente ideológica a qual os cacarejantes alienados repetem irrefletidamente.

O fato é que o controvertido (e as vezes caricato) Hugo Chaves realizou avanços sociais significativos na Venezuela. Há estudos que dão conta que o desenvolvimento econômico e social da Venezuela entre 1999 e 2008, desde o início do governo Chávez, é significativo.

Através da análise de indicadores econômicos e sociais vê-se que o crescimento econômico venezuelano ocorreu com aumento dos gastos públicos, que passaram de 23,7% do PIB em 1998, para 31% em 2006.

Nesse período, os gastos sociais subiram de 8,2% do PIB, para 13,6%. Entre os programas do governo, o destaque são as missões sociais, espécie de cooperativas de trabalho, e os programas específicos de crescimento econômico.

Na análise da política petrolífera destacam-se a Lei dos Hidrocarbonetos e as ações da estatal PDVSA. Essas políticas e a elevação do preço do petróleo contribuíram para o crescimento econômico acelerado a partir de 2003, com redução do desemprego de 19,2% em 2003, para 9,3% em 2007.

O IDH subiu de 0,75 em 2000 para 0,88 em 2006. O coeficiente de Gini caiu de 0,486 em 1998 para 0,424 em 2007; no mesmo período, os 20% mais pobres da população aumentaram sua participação na renda de 4,1% para 5,1%; o índice de pobreza extrema caiu de 24,7% da população total, para 9,4% e o número de indigentes se reduziu de 4,5 milhões, para 2,6 milhões.

Contudo, “não são apenas flores”, pois a redução das receitas petrolíferas e a fuga de capitais, decorrentes da crise econômica surgida a partir de 2008, trouxeram restrições à manutenção das políticas de desenvolvimento do governo Chávez; porém o controle de câmbio vem permitindo a manutenção dos principais programas sociais, com a redução do crescimento econômico de 5,6% em 2008, para apenas 0,3% no primeiro trimestre de 2009, ano em que o PIB sofreu uma queda.

De toda sorte a Venezuela é maior que Hugo Chaves, sobreviverá a ele e a democracia na América Latina é uma conquista de seus povos, não das elites. Essas elites, hoje tão ciosas por democracia, ao longo da História sempre estiveram ao lado dos golpes, dos golpistas e das ditaduras.