domingo, 26 de fevereiro de 2017

MORO, O CONTÍNUO DO IMPÉRIO?


Contínuo é aquele auxiliar para serviços gerais, office-boy. Esse deve ser o papel que a História reserva ao Juiz Sérgio Moro e aos procuradores da operação Lava-Jato.

E não se trata aqui de firmar oposição às operações tão necessárias das policias, especialmente as da Policia Federal, mas de buscar entender os “por quês” de tudo que está ocorrendo, suas verdadeiras causas e as consequências imediatas e mediatas.

A nossa obrigação é apoiar toda ação de natureza republicana e que represente um passo adiante na construção permanente de nossa nação, mas segundo o nosso próprio “figurino” e para atender os interesses nacionais, mas Moro e os Golden Boys do MPF estão professando certezas de além-mar, como se o Brasil fosse uma colônia do império estadunidense. Temos de manter o olhar crítico, pois nos interesse o bem comum, a justiça social e o desenvolvimento humano, além do econômico.

A História é serva da Verdade e está, prima-irmã da Justiça, por isso com o Tempo (eterno aliado da Verdade) haverá de emergir fatos sem véus e sem a paixão presente no coração daqueles que vivem a dor pela quebra da institucionalidade através de um golpe de características únicas, um golpe que pretende manter no poder por décadas, mesmo sem votos, os servos dos interesses do império.

Mas por que Moro seria um contínuo?

Para compreender a tese é necessário que lembremos do livro “Quem pagou a conta? ”, da historiadora britânica Frances Stonor Saunders, o qual que já citei aqui no 247[1].

No livro ela apresenta a tese de que a instrumentalização da “cultura” foi um dos mecanismos de dominação e força dos Estados Unidos em relação a artistas e intelectuais de todo o mundo durante a Guerra Fria; fundações e o departamento de estado dos EUA financiavam todos que se incumbissem de trabalhar como multiplicadores da visão liberal do império.

Sabemos que a dominação ainda ocorre e de outras formas, como o controle dos meios de comunicação, das artes e da cultura que influenciam e dominam, virtualmente, quase todos os povos, sobretudo no Ocidente, etc. Penso que Moro, Janot e os Procuradores da Lava-Jato foram domesticados e são dominados pelo American way off life, todos eles, pelo que li, estudaram em universidades americanas e frequentemente estão por lá.

O intelectual Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira em entrevista recente, citando o historiador John Coatsworth, disse que entre 1898 e 1994, os Estados Unidos patrocinaram, na América Latina, 41 casos de “successful” de golpes de Estado para mudança de regime, “o que equivale à derrubada de um governo a cada 28 meses, em um século”, uma prova inexorável de que no país dos bravos não há amor pela democracia. 

Outro dado: após a Revolução Cubana, os Estados Unidos, em apenas uma década, a partir de 1960, ajudaram a derrubar nove governos, cerca de um a cada três meses, mediante golpes militares, como no Brasil.

Depois de 1994, outros métodos, que não militares, foram usados para destituir os governos de Honduras (2009) e Paraguai (2012), sobre o que já escrevemos aqui no 247[2].

No Brasil, o impeachment da presidente Dilma Rousseff constituiu um golpe de Estado necessário a atender interesses estrangeiros, da elite financeira internacional, dos aliados de setores do empresariado, com o objetivo de regime change, apoiado pela mídia corporativa e por camadas das classes médias, sensíveis às denúncias de corrupção transformadas em reality show e há evidências, diretas e indiretas, de que os Estados Unidos influíram e encorajaram a lawfare.

Nesse contexto entra a figura obscura do juiz de primeira instância Sérgio Moro, condutor do processo contra a Petrobras e contra as grandes construtoras nacionais, segundo Moniz Bandeira, servil prepara-se para a tarefa desde 2007, nos cursos promovidos pelo Departamento de Estado; seguiu em 2008, quando participou de um programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard, em conjunto com sua colega Gisele Lemke e em outubro de 2009, participou ainda da conferência regional sobre “Illicit Financial Crimes”, promovida no Rio de Janeiro pela Embaixada dos Estados Unidos.

Sabe-se que a Agência Nacional de Segurança (NSA), que monitorou as comunicações da Petrobras, descobriu a ocorrência de irregularidades e corrupção de alguns militantes do PT e, possivelmente, forneceu os dados sobre o doleiro Alberto Yousseff ao juiz Sérgio Moro, já treinado em ação multi-jurisdicional e práticas de investigação, inclusive com demonstrações reais (como preparar testemunhas para delatar terceiros). 

Mas, e os efeitos positivos da Lava-Jato? Devem existir e o Tempo poderá mostrar, mas hoje o que se revela é o contrário, assim como revela que o estamento burocrático é o elemento fundamental do atraso do país, exatamente porque mantém a cultura aristocrática de um passado que não pretende esquecer, tanto que se veste com mantos negros para se diferenciar, trabalha em palácios e reúne-se em cortes para arbitrar as questões que lhes são postas a decidir, sem preocupar-se com o povo, apenas com o mérito.
Esse estamento burocrático é fruto do patrimonialismo e dele servo leal; Moro vive essa realidade. O patrimonialismo controla a economia, política e a criação das leis, além da sua aplicação e fiscalização, é disso que se trata todas as coisas que nos inquietam.
O Poder Judiciário e o Ministério Público foram ideologicamente capturados por um sistema político e econômico no qual o poder é exercido pelo grupo mais rico e aceitam com naturalidade essa concentração de poder nas mãos da elite econômica, não se incomodando que essa concentração venha acompanhada de profunda desigualdade de renda e baixo grau de mobilidade social.
Como exemplo dos “serviços” prestados por Moro podemos citar os efeitos sociais e econômicos da Lava-Jato, que em razão de seu provável compromisso e alinhamento ideológico com a plutocracia internacional, é o culpado pela perda de 140 bilhões de reais no PIB nacional em 2015.
Daí a pertinência da questão: seria Moro um continuo do império?

Mas não é só ele que vai prestar contas com a História. Segundo Moniz Bandeira outro é Rodrigo Janot, mas os comentários ficam para outro dia.



[1] http://www.brasil247.com/pt/colunistas/pedromaciel/268837/Seria-Fernando-Henrique-Cardoso-um-traidor-e-corrupto.htm
[2] http://www.brasil247.com/pt/colunistas/pedromaciel/227525/Honduras-Paraguai-e-Brasil-Qual-ser%C3%A1-o-pr%C3%B3ximo.htm

domingo, 19 de fevereiro de 2017

NÃO FOI UM DOMINGO QUALQUER...

Seria um domingo qualquer, desses que se apresentam iguais a tantos outros: preguiçosos, sem aventuras ou lembranças afetivas, contudo meu filho Caio, jornalista e o melhor zagueira que já vi jogar, me convidou para assistir um jogo de futebol do seu antigo time.

 Bem, sem grandes expectativas fomos à Hípica e ao chegarmos pudemos perceber que seria um dia memorável.
Seus amigos Thiago Albernaz, o Tiba, e Rodrigo Curti, o Digão, dentre outros, conseguiram reunir quase todos os meninos que viveram aventuras esportivas nos diversos campeonatos ou copas em Campinas, na região e até na Europa, isso dos cinco ou seis anos de idade até os dezessete ou dezoito anos...

Além dos meninos (hoje adultos, profissionais, alguns maridos ou pais...), que alegraram tanto nossos finais de semana com seus sonhos, revelados em sorrisos e abraços generosos, estavam lá alguns pais, mães, irmãos e professores.

Não havia quem não estivesse muito emocionado e sensível a lembranças que alimentam e dão sentido à alma e à vida.
Dito isso gostaria de falar de uma virtude fundamental: a amizade.

Aristóteles nos lega a lição de que a amizade é essencial, em dois livros sublimes da “Ética a Nicômaco”. Na obra ele nos convida a procurar o bem e indagar o que ele é. Afirma que se existe uma finalidade para tudo o que fazemos, a finalidade deve ser o bem. A melhor função do homem é a vida ativa que tem um princípio racional. Devemos compreender o bem como atividade da alma e o resultado é a felicidade. É na amizade que encontramos o caminho do bem e da felicidade.

Sem o exercício da amizade a vida seria um erro e um grande vazio, seria com a polidez: necessária, um pré-requisito, mas um nada em si. A amizade é condição da felicidade, refúgio contra a infelicidade, ao mesmo tempo útil, agradável e boa.

A amizade, segundo Aristóteles, é “desejável por ela mesma” e “consiste antes em amar que em ser amado”. A amizade seria uma espécie de igualdade, que a precede ou que ela instaura. Valeria mais que a justiça, e a inclui, que é ao mesmo tempo sua mais elevada expressão e sua superação.

Amizade seria comunidade, partilha, fidelidade, afinal os amigos se rejubilam uns aos outros, e com sua amizade em si, sem qualquer razão outra que não ela própria.

É verdade que não se pode ser amigo de todos, nem da maioria, mas os amigos nos emprestam um sentido de completude, de inafastável importância, amizade é uma virtude, um presente, uma forma de amar.

Mas quem são nossos amigos?

Bem, falando sobre o sentido profundo da amizade, o Papa Francisco afirmou recentemente que nunca teve tantos “amigos” como agora, todos querem ser amigos do Papa... Mas a amizade é algo muito sagrado, um amigo não é um conhecido, com quem se tem uma conversa, um amigo é um irmão que tudo compreende, repreende, perdoa e, de mãos dadas, ajuda na reparação que segue-se ao arrependimento; um amigo é um irmão que presenteia com um abraço discreto, quase invisível, nas nossas vitórias e nos acolhe às escancaras nos nossos tropeços. Francisco nos adverte ainda para o sentido utilitário das amizades, de aproximar-se de uma pessoa para tirar proveito. Isso, segundo ele, machuca a alma; usar as pessoas ou ser usado por elas é dolorido. O que nos vale é amizade resiliente, já a amizade interesseira (experiência pela qual todos passamos) é caminho de aprendizado. A amizade é um acompanhar a vida do outro a partir de um pressuposto tácito, qual seja: de que as verdadeiras amizades nascem espontaneamente e perduram, não obstante o tempo.
Nesse tempo em que impera a cultura da inimizade, contra a qual é preciso trabalhar e substituir por uma cultura de paz.
Já a Professora Luciana Karine de Souza, doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pesquisadora no Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais argumenta no seu “Educação para a paz e educação moral na prevenção à violência[1] que a promoção da maturidade de julgamento moral por meio de debates de dilemas morais favorece o surgimento do raciocínio crítico que possibilita o questionamento de situações injustas, inclusive no que tange à violência, seja ela direta ou estrutural e indica a utilização de dilemas morais com conteúdo relacionado à busca da paz em diferentes níveis, como o escolar, o social e o internacional, considera ainda que na compreensão dos fenômenos de paz e de violência estão implícitas as normas, valores e experiências compartilhadas por uma dada cultura, o questionamento dessas normas e valores pode levar a mudanças na compreensão desses fenômenos. É um ensaio fundamental, mas talvez tenha faltado dizer que a educação para a paz pode ter início com um abraço, uma gargalhada ou no silêncio fundamental de um amigo que nos ouve, não julga e tanta paz empresta a essa nossa breve aventura.

Obrigado à sorte, força divina reguladora dos acasos, e aos amigos Tiba, Digão, Ticelli, aos irmãos Raul e Renê, Braga, Caetano, Mineiro, Gerba, Zini, Mauricio, Murilinho, Lê, Déco, Caiosa, Professor André e aos pais e mães, por terem transformado um domingo qualquer em lembrança afetiva e perene, obrigado pelo abraço, pela gargalhada e por ouvirem em silêncio generoso tudo quanto foi ou será dito.







[1] http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-69752007000200008