domingo, 11 de setembro de 2016

O golpe e a nuvem de gafanhotos

"Nós, brasileiros, somos um povo sem ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros..." (Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro)


A plutocracia, através de seus vassalos, cassou o mandato de uma presidente que não cometeu crime de responsabilidade, cassou porque quis cassar, cassou porque não poderia esperar que a via democrática colocasse de volta no Planalto a sua agenda e sua política econômica; cassou com diligente empenho de parte da classe política e da imprensa, que manejou a opinião pública de forma vergonhosa.

Fato é que o projeto nacional de desenvolvimento, projeto que os setores progressistas passaram a implantar em 2003, foi abortado e o neoliberalismo (derrotado nas urnas nas quatro ultimas eleições) está sendo colocado em prática novamente: privatizações, flexibilização de direitos trabalhistas, redução de investimentos em educação e saúde, além da nefasta proposta de reforma na previdência, para citar uns poucos exemplos do por vir.

Um vassalo da plutocracia, conspirador, golpista, potencialmente misógino e racista, assumiu a presidência através de um Golpe de Estado; um presidente ilegítimo cuja grande preocupação é salvar a própria pele, e a de seus sócios nos malfeitos, das investigações e processos que haverão de mostrar à nação quem são os grandes corruptos da política nacional.

E a plutocracia, fleumática, segue a degustar, sem culpa, garrafas de Château Lafite 1787, ignorando o Brasil, seu povo e suas aspirações.

Mas não podemos ser arrogantes e ignorar que o Golpe de Estado só ocorreu porque a esquerda acomodou-se num governo pragmático e excessivamente conciliador, progressista é verdade, mas fundamentalmente conciliador; um governo que fez muitas coisas boas, algumas excepcionais, mas insuficientes.
Insuficientes porque não fez as reformas que deveria e poderia ter feito; não enfrentou temas fundamentais como a reforma política, a reforma tributária e a regulação da mídia, por exemplo. 

Um governo que se tornou arrogante e apostou que poderia manter os senhores do mercado pacificados.

Arrogante sim, pois não poderiam ignorar que a plutocracia condenou D. Pedro II ao degredo, levou Getúlio Vargas ao suicídio, depôs João Goulart, apoiou o golpe de 1964 e a ditadura que se seguiu ao golpe; tudo para cinicamente enviar pêsames às famílias de JK, Jango e Lacerda...

O BRASIL MESTIÇO.
Há quem afirme que o Brasil é um dos países mais miscigenados do mundo. E nossa diversidade seria resultado da contribuição de vários povos; a formação da nossa identidade é resultado dessa diversidade, nela estão presentes os índios, os primeiros colonizadores (os portugueses) e imigrantes (franceses, holandeses, italianos, japoneses, alemães, espanhóis, libaneses, sírios, dentre outros) e, a meu juízo, a maior contribuição vem dos negros vindos da África.

Não se pode perder isso de vista essa realidade constitutiva de nossa história quando falamos em desenvolvimento, nem a perspectiva de que todo o desenvolvimento válido depende de um projeto nacional e regional.

Ignorar a diversidade, ignorar que nossa grande riqueza está na nossa miscigenação e que é da diversidade que emerge a brasilidade, representa frear o desenvolvimento virtuoso para o qual o Brasil está destinado.

A plutocracia despreza a riqueza humana do nosso país, despreza o Brasil e suas peculiaridades, não se pode esquecer disso.

POR UM PROJETO DEMOCRÁTICO DE DESENVOLVIMENTO.
Podemos afirmar que sem projeto nacional, ampla e democraticamente debatido com a sociedade, não haverá desenvolvimento.

Apenas a existência de um projeto demonstraria preocupação com o futuro e, como diz Bauman, “quem não se preocupa com o futuro, faz isso por sua conta e risco”.

A plutocracia nunca se preocupou, nem ocupou de apresentar ao debate um projeto de desenvolvimento nacional, pois ela não há democratas ou patriotas entre eles e seu olhar sempre foi limitado aos seus interesses e para além mar.

Ademais, a plutocracia sempre relativizou a democracia, ou a desconstruiu de acordo com seus interesses, por isso toda a prosperidade no Brasil é de curto prazo, assim como episódicos são os períodos de estabilidade democrática.

E, por falar em prosperidade, merece registro que o liberalismo - ideologia da plutocracia - promete prosperidade através do mercado livre e do sistema financeiro sem regulação, mas isso não é factível, pois o mercado e o sistema financeiro, sem regulação estatal séria, são apenas geradores de crises mundiais cíclicas e odiosa concentração de renda e riqueza nas mãos de poucos.

Mas não sejamos injustos, afinal o liberalismo é eficiente na ampliação da injustiça social, pois no liberalismo plutocrático não há equidade possível ou desejável, não há projeto nacional de desenvolvimento e não há democracia.

O sistema econômico liberal depende da existência daquilo que Bauman chama de “mercados frágeis” para seguir a sanha expansionista, o que, como uma nuvem de gafanhotos, é devastador.

Nesse expansionismo de gafanhotos reside o descaso com o projeto nacional. Há ainda a ausência de preocupação ou compromisso com as pessoas, tanto é verdade que a sucessão de “bolhas”, que expandem além da capacidade e da realidade e explodem impondo a toda uma geração perdas e sofrimento, fato que não causa nenhum tipo de dor ou arrependimento à plutocracia ou seus lacaios.  

TEMPO DE RESISTÊNCIA.
Denunciar o golpe, denunciar os arquitetos do golpe e seus operadores são algumas das lutas fundamentais em curso que merecem a nossa atenção e ação, mas há outras questões que não podem ser esquecidas, pois elas são estruturantes.
Há a questão LGBTTT, a questão indígena, a questão dos negros, a questão das mulheres, há a questão da juventude urbana das periferias e da cultura que lá é produzida, há o renascido movimento estudantil, há a questão cultural propriamente dita, a questão agrária não pode ser esquecida, o debate sobre a reforma urbana e a indesejada apropriação de espaços públicos por interesses privados, a nova família, etc., etc. etc.
Essas e outras são questões fundamentais que apenas o setor progressista é capaz de compreender seu valor transformador e a semente revolucionaria nelas contidas.
Conhecer e compreender essas questões e debatê-las é fundamental para não legarmos aos nossos filhos e filhas o sentimento de resignação de que a boa vida deve refletir valores de uma sociedade burguesa, branca, que busca adequar-se a um emprego sem sentido, uma família tradicional, uma casa numa periferia pensada como adequada por quem não vive lá, afinal a transformação da realidade e o caminho do progresso emana das ruas, da sociedade e não de algum gabinete luxuoso na Avenida Paulista ou na Esplanada dos Ministérios.

Já escrevi e repito: tempo de resistência, de autocrítica e de luta, não de revanche.

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