sábado, 21 de maio de 2016

ZÉ DIRCEU, GUERREIRO E POETA.



"Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem"
                                                                       Rosa Luxemburgo

O mineiro de Passa Quatro José Dirceu de Oliveira e Silva não é apenas mais um político brasileiro, ele é uma das personalidades mais importantes da política brasileira desde a última década do século XX e no inicio do século XXI e antes sua biografia é marcada pelo heroísmo daqueles que nos anos 60 e 70 opunham-se à ditadura militar e resistiram bravamente à sua lógica. O filho da Dona Olga, irmão do Luiz e amigo leal dos amigos e às suas convicções,
Algumas reflexões são necessárias.
Conta-se que um senhor de idade avançada plantava tâmaras no deserto quando um jovem o abordou perguntando: “Mas por que o senhor perde tempo plantando o que não vai colher?”. O senhor virou a cabeça e, calmamente, respondeu: “Se todos pensassem como você, ninguém colheria tâmaras”. Ou seja, não importa se você vai colher, o que importa é o que você vai deixar... Cultive, construa e plante ações que não sejam apenas para você, mas que possam servir para todos e para o futuro.". É assim que vejo Zé Dirceu.
Durante todo ano de 2012 escrevi que Zé Dirceu foi "herói de uma geração", mantenho essa opinião, ela tem fundamento e viés histórico, pois todos os jovens progressistas daquela geração - que hoje tem entre 60 e 80 anos - que se opuseram à ditadura militar são heróis, afinal naquele contexto aqueles muitos jovens foram presos, barbaramente torturados, outros foram expulsos do país e outros foram mortos ou simplesmente desapareceram, tudo obra de uma ditadura militar cruel, era necessário ser um herói para manter-se na oposição.
O "herói" é uma figura arquetípica que reúne em si os atributos necessários para superar de forma excepcional um determinado problema de dimensão épica. Acredito que são heróis daquela geração TODOS que lutaram - cada um a seu modo - contra a ditadura e pela democracia. Portanto, para mim Zé Dirceu é um herói.
Sou um democrata de esquerda, sem preconceitos e disposto ser convencido, fundamentadamente, de posições novas, mas ressalvo que o fato de o herói da juventude ter sido declarado, na maturidade, corrupto ou corruptor não apaga da sua biografia o heroísmo da juventude.
É assim que eu penso, é assim que pretendo seguir, polemizando – se necessário - e defendendo por meus filhos, o Estado de Direito, a Democracia e os valores republicanos e principalmente a verdade e a História.
Não ignoro que Zé Dirceu deixou o Governo Lula acusado de ser o mentor do “Mensalão”, que em 2012 foi condenado, sem provas, pelo STF na ação penal 470, que em 2013 foi preso, que em 18 de maio de 2016, Dirceu foi condenado a prisão por crimes como: corrupção passiva, recebimento de vantagem indevida e lavagem de dinheiro no esquema de corrupção descoberto na Petrobras pela Operação Lava Jato.
Mas é necessário registrar que a mídia sempre pré-julga. E no caso do Mensalão pré-julgou.  A pessoa que corresponde às expectativas e interesses da mídia passa a ser herói nacional e quem não corresponde passa a ser o vilão. Esse é um problema muito sério, que se vê, sobretudo, em casos criminais. O Mensalão é um caso criminal, onde ocorreu enorme pressão da mídia, a qual forma a opinião pública. Não é a pressão da opinião pública, porque a opinião pública é manejada pela mídia. Mas nos casos criminais do Brasil, o que é proibido em outros países, a mídia condena sem processo e dificilmente absolve [1].  
Em relação à condenação na AP 470 escrevi que a decisão do STF foi um simulacro de Justiça, pois Zé Dirceu foi condenado sem provas, através da equivocada e oportunista aplicação da “Teoria do Domínio do Fato”; em relação à segunda condenação, inegavelmente exagerada, penso que ela está inserida em algo maior que ainda não compreendemos; mas o tempo, primo irmão da verdade, haverá de esclarecer o significado de tudo isso.  Aos setenta anos e condenado a mais de duas décadas de prisão é possível que Zé Dirceu não deixe mais o cárcere, uma tragédia pessoal enorme, mas os grandes homens surpreendem.  
Retomei a leitura dos “Cadernos do Cárcere” de Antonio Gramsci. Tem sido um desafio para mim, um estimulante desafio. Antonio Gramsci nos estimula a pensar profundamente os mais diferentes temas, assuntos e problemas de todas as áreas do pensamento social e nos impressiona ver a sua coerência, nunca abalada, seja pela diversidade das questões tratadas nos Cadernos, como também pelas circunstâncias históricas, Gramsci foi preso pelo fascismo italiano que, em novembro de 1926, sentenciou por 20 anos para “impedir que este cérebro funcione[2].
Mas na prisão Gramisc produziu os Cadernos do Cárcere que são a prova de que, apesar da reclusão e de todas as privações por que passou, Gramsci derrotou a violenta sentença, dedicou-se até o último momento ao combate tenaz a um dos regimes mais odiáveis que já existiram: o fascismo.
Aguardo de Zé Dirceu algo parecido, pois se “Aos oito anos, todos nós somos guerreiros. Aos quinze, todos nós somos poetas. Daí para adiante nem sempre somos alguma coisa...[3] ele sempre foi muito e manteve sempre no coração, na mente e na ação, o guerreiro e o poeta vivos e em movimento livre, inquieto e inspirador. Força comandante, afinal “Quem planta tâmaras, não colhe tâmaras!” 




[1] Ada Pellegrinni,professora da Faculdade de Direito da USP em entrevista ao CONJUR.
[2] Giuseppe Fiori no seu: “A vida de Antonio Gramsci” Ed. Paz e Terra, 1979. p. 2851
[3] Hildebrando Siqueira, 1930.

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