sábado, 19 de março de 2016

Pérolas aos porcos



O titulo do artigo faz referência ao evangelho de Mateus. Mateus.  Trata-se de um evangelho escrito para que os judeus pudessem conhecer e compreender os ensinamentos de Jesus.
Mateus mostra uma face de Jesus numa linguagem compreensível aos judeus (tanto que aparecem centenas de citações do Antigo Testamento) e apresenta Jesus como uma espécie de novo Moisés, tanto que as bem-aventuranças são proclamadas em um monte, remetendo a outra imagem: a dos “10 mandamentos” dados por Deus a Moisés no Monte Sinai.  
A famosa frase “não lance as perolas aos porcos” se situa no primeiro livro de Mateus e trata da Justiça. É interessante ler e reler Mateus, pois ele nos apresenta uma narrativa afirmativa no sentido de que a Justiça é que liberta a pessoa, a verdade é libertadora.

Eu acredito que o centro de gravidade do desenvolvimento jurídico não está na legislação, na ciência do direito ou na jurisprudência, mas na sociedade. Há na sociedade — entre a ação humana e as estruturas sociais — uma tensão contínua de natureza dialética, pois na ação humana a diversidade se contrapõe a unidade das estruturas sociais e isso é indutor do o aperfeiçoamento.

É nesse quadrante que encontramos as bem-aventuranças, as quais, creio, são uma espécie de “carta magna” do cristianismo.  E através da leitura das bem-aventuranças podemos alcançar a consciência de nós mesmos, a consciência de que não podemos coisa alguma sozinhos, pois dependemos uns dos outros e do exercício das virtudes humanas e divinas na construção cotidiana do bem.

Os que confiam na sua própria justiça e em seus próprios méritos, sendo orgulhosos e auto-suficientes que se afastam do bom caminho. O orgulho e a auto-suficiência nublam a nossa consciência sobre todas as coisas válidas, necessitamos o tempo todo exercitar a humildade e a autocrítica. Não lançar pérolas aos porcos é a advertência de Mateus, que nos alerta que a justiça não é uma teoria abstrata, mas é prática e deve ser observada no nosso dia-a-dia e nos ajuda a colocar em prática valores válidos e virtudes essenciais. Podemos dizer que são conselhos práticos: sobre o risco de julgar as outras pessoas; sobre o discernimento, a confiança em Deus e cuidado com os aproveitadores.

Lanço mão do meu evangelista favorito para dizer novamente que o PT falhou, que faltou a seus dirigentes discernimento e, principalmente, cuidado com os aproveitadores e faltando-lhes isso lançaram aos porcos suas pérolas, lançaram aos cães o que lhe era mais caro e agora todos se voltam contra essas atitudes e as conseqüências se nos apresentam como tragédia ou como farsa.

Penso que podemos comparar as “pérolas” com a honestidade de propósitos que acompanhava os fundadores do PT (e que acompanham boa parte da militância e simpatizantes até hoje). Havia o desejo genuíno de romper com a lógica cruel das oligarquias nacionais que são o que são: autoritárias, antidemocráticas e que não tem nenhum compromisso com a nação.

Todos nós tínhamos certeza que a chegada do PT ao poder representaria garantia de que Política poderia ser feita com ética e tendo em perspectiva irrenunciável o interesse público, o desenvolvimento econômico e social e a necessária distribuição de renda. Mas em nome da governabilidade e para conseguir implantar políticas sociais essenciais o PT perdeu-se e perdeu a luz, perdeu – pelo menos de mim - a confiança irrestrita e defesa incondicional, deixou-se cooptar pelos porcos e vê-se sendo despedaçado por eles.

É verdade que não podemos perder de vista que as oligarquias não perdoam e que buscam tomar o poder com ou sem votos, nossa História é rica nisso... D. Pedro II foi deposto através de um golpe militar apoiado pelas oligarquias inconformadas com a abolição da escravidão no país; em 1954 Getúlio Vargas suicidou-se após resistir às pressões e às denuncias de corrupção, nunca provadas, as quais eram veiculadas diariamente mídia da época; em 1961 elas levaram Jânio Quadros a renuncia e em 1964 depuseram João Goulart e apoiaram uma ditadura. E hoje se movimentam novamente buscando fazer prevalecer seus interesses. Mas é constrangedor ver lideres populares manterem relações “de amizade” com empreiteiros e banqueiros... O PT deixou de ser o PT, deixou-se cooptar e transformou-se em um partido igual aos demais.

Por isso repito, ou o PT faz uma autocrítica pública e honesta, recompõe-se e põe fim ao delírio da inatacabilidade e inalcançabilidade de seus quadros ou a socialdemocracia e os setores progressistas do país estarão sob risco de serem varridos nas eleições desse ano e enterrados em 2018. Sem autocrítica pública e honesta, sem debate político qualificado boa parte importante da militância e dos simpatizantes da esquerda seguirá solidária a Lula, reconhecendo sua História e valor, gratos aos heróis da redemocratização, mas cada vez mais distantes da ação Política necessária e válida e esse espaço que será ocupado por aproveitadores e heróis fabricados para cada ocasião.


Sem uma esquerda responsável e democrática, sem os lideres progressistas distantes de suspeitas que nos constrangem corremos o risco de ouvirmos bater à nossa porta algum tipo de Donald Trump tupiniquim. É tempo de autocrítica, pacificação, reconciliação e abrir nossas casas a todos que acreditem na democracia, do Estado democrático de Direito e na Justiça Social acima de tudo.

Um comentário:

  1. Muito bom. E com uma baita trilha sonora:
    https://www.youtube.com/watch?v=1wdAT7AGoIg

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