domingo, 1 de novembro de 2015

Chamar o pensamento de Simone de Beauvoir de demoníaco é flertar com a estupidez.

Simone de Beauvoir, uma das importantes pensadoras do século XX, não fala do "ser mulher" como uma figura fisiológica ou biológica, mas como produto cultural, uma figura socialmente construída.
É sobre isso senhores vereadores de Campinas que tratou o fragmento do texto contido na prova de ciências humanas do ENEM, não se tratava de nada "demoníaco"... Afirmar que esse pensamento é demoníaco flerta com a estupidez.
Estupidez ou mau-caratismo do vereador que usou a expressão, pois, gênero não é o mesmo que sexo, o sexo é biológico, nascemos com o sexo, já o gênero é uma construção social. Análise esta, pontuada nos estudos das ciências humanas e da sociedade como a Sociologia, a História por exemplo. Portanto a propositura deste conteúdo em avaliações como o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) mostra consonância com a realidade social brasileira e internacional, sua historicidade e contemporaneidade.
Márcia Tiburi está certa "Ele [o livro de Simone de Beauvoir] deveria ser lido não por feministas apenas, mas por mulheres, homens e todas as pessoas que, de um modo ou de outro, estão marcados pela questão de gênero, porque se trata de um livro básico, que nos ensina a pensar sobre as desigualdades e privilégios de gênero, aqueles que experimentamos como os mais naturais sem perceber como nos marcam."
É verdade também que o Papa Francisco, recentemente, falou da ideologia de gênero como de uma "colonização ideológica", como "expressão de frustração", como um apagamento da diferença sexual, essa é uma reflexão. Ele não fala em nada demoníaco, essa é a verdade, esse é o debate.
Mas a diferença sexual da qual fala o Papa Francisco é concebida como dada na natureza, objetiva, sem discussão, tem-se de entender esse contexto, a reflexão do Papa não considera a dinâmica e complexidade das relações humanas hoje.
Há ainda Joseph Ratzinger que escreveu, faz mais de 10 anos, na Carta aos bispos da Igreja Católica sobre a "colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo", que o gênero é inimigo, uma forma de feminismo hostil.
Joseph Ratzinger trata as grandes teóricas, Judith Butler e Simone de Beauvoir (e a sua frase "não se nasce mulher, torna-se") da mesma forma...
Mas Ratzinger não conta como uma posição cristã genuína, pois foi ele que baniu Leonardo Boff e a Teoria da Libertação e privou milhões de pessoas da ação cristã, da generosidade humana e sepultou orientação da Igreja Católica correta do Concílio Vaticano II e da Conferência de Medellín.
Mas quem quer ser intelectualmente honesto tem de reconhecer contradições da posição da Igreja, afinal o Papa e a Igreja aceitam o progressismo social, mas tem dificuldade de reconhecer a mudança das relações entre os humanos; eles podem aceitar, na misericórdia, os homossexuais, mas paradoxalmente não aceitam a comunidade LGBT; falam do inegável valor das mulheres, criticam a violência contra elas, mas não reconhecem a sua autodeterminação.
Ninguém precisa concordar com Simone de Beauvoir ou com a Igreja , mas discordar com honestidade é fundamental, tem-se de usar o argumento intelectual correto, no ambiente adequado, fora desses não se deve perder tempos com a estupidez humana

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