quarta-feira, 6 de maio de 2015

CHOQUE DE SOCIEDADE E FRENTE AMPLA

As urnas em 5 de outubro de 2014 impuseram às esquerdas uma retumbante derrota no estado de São Paulo, não adianta “tapar o Sol com a peneira”.
medíocre votação do candidato a governador Alexandre Padilha, a diminuição de cadeiras na assembleia legislativa do estado e no congresso nacional revelaram que a esquerda deveria “pôr as barbas de molho”, e fazer uma autocritica capaz de orientar um acertamento nas suas alianças futuras. Isso não aconteceu até agora.
A esquerda e o PT em especial deveriam avaliar com serena honestidade “por que” perderam o histórico apoio da chamada classe média, dos micro e pequenos empresários, dos professores, profissionais liberais, bem como por que perdeu a hegemonia de representatividade junto à classe trabalhadora, especialmente no estado de São Paulo repita-se, único espaço que tenho condições de avaliar validamente.
Afirmo isso porque está evidente que setores conservadores e seu discurso moralista cooptaram e cooptam a classe média em especial, mas também a chamada nova classe média e os setores citados acima, todos aliados históricos dos setores progressistas, socialdemocratas e socialistas.
E a classe média e a nova classe média, seduzidas pela cantilena liberal e abastecida por uma fortíssima campanha midiática, aparentemente passou a rejeitar todos os entes coletivos que possam geram turbulência aos interesses àqueles que a seduziram. 
Na prática o sonho de uma sociedade fundada no Welfare State não foi varrido do mapa definitivamente em razão da vitória de Dilma Rousseff também no segundo turno, mas o sonho do Welfare State e o projeto social-desenvolvimentista estão a sofrer críticas desde então. Essa inflexão conservadora pode ter levado à aprovação do terrível Projeto de Lei 4330, que trata da terceirização, por exemplo.
Bem, após aquele 5 de outubro os setores progressistas, a direção do Partido dos Trabalhadores, a militância e os simpatizantes nas três semanas seguintes responderam com discurso e ação política criativa, generosa e propositiva e levaram Dilma a sua segunda vitória. Mas desde antes da posse a Presidente reeleita não teve um dia de paz.
Dias após o primeiro turno um jornal publicou um longo artigo que escrevi contendo essa avaliação, reafirmando minha fé nos setores progressistas, nos trabalhadores, no micro, pequeno e médio empresário, a confiança e a certeza que o Brasil pode e deve seguir avançando nas mudanças iniciadas em 2003.
Afirmei também “não tenho dúvida alguma que o PT enfrentará no dia 26 de outubro a eleição mais dura de sua história e, independentemente do resultado é necessária uma reflexão honesta acerca da tática, das ações no governo e, em qualquer hipótese buscar a reconciliação com antigos companheiros que buscaram acolhida no PSB, PSOL, PV, afinal todos tem muito a dizer, aprender e ensinar. ”. Bem, Dilma Rousseff venceu as eleições e a autocritica do PT não aconteceu, mas sempre é tempo.
Penso que é fundamental ao PT uma autocritica e um acerto de contas com sua história, acredito que as futuras alianças devam ocorrer do centro para a esquerda, está comprovado que as alianças longevas do centro para a direita, em nome da governabilidade, levaram a esquerda brasileira à encruzilhada moral em que se encontra inegavelmente.
Não estou sozinho.
Uma opinião muito interessante é a do ex-Presidente do PT e ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro. Para ele a forma tradicional de partido está superada e esquerda deveria, por exemplo, ter receita própria para o ajuste fiscal ao invés de deixar-se levar pelo modelo tão próprio dos seguidores de Milton Friedman.
O Ex-governador do Rio Grande do Sul, foi também ministro da Justiça no governo Lula e presidente do PT na época do chamado 'mensalão', é um dos quadros históricos do partido e um dos poucos que tem feito críticas públicas, e muito corretas, às escolhas dos governos petistas e ao atual momento da legenda. Para ele, uma das razões da crise pela qual a sigla passa é o fato de o PT ter se tornado “um partido excessivamente de governo" e a solução seria o PT tomar “um choque de sociedade civil”, pois a capacidade de renovação interna do PT "está esgotada”, noutras palavras, o PT distanciou-se da sociedade, de suas demandas e colocou-se como capaz de dizer o caminho, sem ouvir os caminhantes.

Tarso Genro tem autoridade histórica e moral para fazer essas afirmações, pois foi ele um dos escolhidos pelo ex-presidente Lula para construir o campo de. E do alto dessa inegável autoridade de quem ajudou a garantir a governabilidade às gestões petistas, afirma que “esse formato começou a ruir no primeiro mandato de Dilma”, pois o sistema de coalizão não presta mais para nada e propõe uma frente ampla, uma frente que, exemplificadamente, fosse do Bresser-Pereira ao Jean Wyllys, afirma Tarso Genro.

E sobre essa ideia da frente ampla o ex-presidente e intelectual Roberto Amaral a propõe como instrumento estratégico de resistência aos ataques conservadores e para avanço de políticas públicas progressistas.

Roberto Amaral, um dos pensadores que mais admiro, propõe uma frente ampla, não de partidos, mas uma frente ampla de caráter nacional popular que congregue as forças progressistas, para além das esquerdas, partidárias ou não, organizadas de preferência, mas não necessariamente, como sindicatos, as diversas instituições e entidades da sociedade civil, intelectuais de modo geral, a comunidade acadêmica, o pensamento progressista em sentido amplo, compreendendo liberais de esquerda, a saber, todos os que estiverem convencidos de que só somando, compartilhando e alargando nossas forças para além de nosso campo, poderemos fazer frente à ascensão do pensamento e da ação da direita, que se organiza para a tomada do poder para nele promover, como já anunciada, a revisão dos avanços sociais, econômicos e políticos logrados pela sociedade brasileira nas últimas décadas.

O desafio exige compromissos com a soberania nacional, a retomada do desenvolvimento autônomo e a preservação dos direitos dos trabalhadores.


Essa frente ampla é uma grande ideia, desde que não se limite a pensar o imediato, tem de ser um espaço que não se deixe contaminar pela pequena política praticada pelos setores lacerdistas da oposição, uma frente que não se isole e que pense o Brasil para além das próximas eleições, uma frente que pense o Brasil para esta e para as próximas gerações.

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