sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os ciclos recessivos, crises e capitalismo.

A queda dos preços do petróleo e de outras commodities que se acentuaram a partir de 2014 deve limitar o crescimento de países que vinham tentando usar seus recursos naturais para alcançar patamares superiores no desenvolvimento econômico e social.

Essa é a explicação da imprensa liberal sobre a crise que agora alcança também os países da América Latina e África, que nos últimos dez anos buscaram aproveitar os preços altos das matérias-primas para melhorar o padrão de vida de sua população de baixa renda.

O fato é que governos como o do Brasil que procuraram dar saltos de desenvolvimento criando programas de bem-estar social e tomando iniciativas ambiciosas para geração de emprego, trabalho e renda através do investimento em obras de infraestrutura como estradas, rodovias, portos, indústria naval, etc., terão menos dinheiro para isso.

É o momento em que os críticos do modelo desenvolvimentista saem das tocas e armados com seu previsível e recorrente discurso moralista e pela lógica conservadora da meritocracia passam a criticar o modelo de governança.

Mas o problema é de fato a política desenvolvimentista? Teria sido melhor a manutenção das políticas liberais?

Penso que o exemplo da Espanha ilustra o meu ponto de vista sobre as questões acima.

A monarquia ibérica que sucedeu a ditadura de Franco e que mantém a política e a lógica neoliberal alcançou a taxa desemprego de 24% no terceiro trimestre de 2014, conforme noticiou um importante jornal brasileiro especializado em economia e negócios. Ou seja, praticamente ¼ da população economicamente ativa na Espanha está desempregada, são quase 6 milhões de pessoas sem trabalho.

Na Espanha não foram aplicadas políticas desenvolvimentistas e keynesianas, portanto não é possível que o neoliberalismo seja uma opção, salvo para aqueles que vivem da exploração do trabalho alheio através dos juros e das rendas.

O fato é que ao compreender o capitalismo como uma forma de relação social tem-se que aceitar o fato de que ele [o capitalismo] exige, por sua processualidade interna, a reprodução ampliada do sistema de produção de valor e temos de ser honestos e concordar que existe uma consequência lógica inevitável do funcionamento desse modo de produção. Qual consequência?

Bem, o sistema econômico que chamamos de capitalismo é fundado na exploração do trabalho assalariado e tem na esfera da produção e circulação de mercadorias a essência de seu funcionamento, já que é lá que é produzido o valor, necessita, diante do fato de que a riqueza de cada indivíduo é parte alíquota da riqueza global, aumentar incessantemente a quantidade de valor produzido. 

Mas esse aumento incessante é impossível, por isso ocorrem as crises, porque o sistema contém falhas e contradições incorrigíveis. As falhas e contradições são incorrigíveis e insuperáveis e o capitalismo gera suas próprias crises e elas ocorrem de forma cíclica.

Em outras palavras, a sociedade capitalista tem como contradição inerente o fato de que a capacidade de reprodução ampliada do capital (objetivo da produção) é obstruída pelo próprio sistema econômico posto em funcionamento em razão da acumulação desproporcional de riqueza, da incapacidade de distribuição da riqueza produzida – dentre outras causas, impedem a produção de mais capital e o sistema tem de desintegra-se para recomeçar e tudo isso ocorre sem considerar que as pessoas tem uma vida para viver.


Essa é a causa verdadeira da crise pela qual o mundo está passando, não o preço das commodities.

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