quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O GOLPE E SEU MÉTODO.

Meu pai tem uma grande capacidade de sintetizar seus argumentos. 

Essa semana ele conversava com alguns amigos sobre a pertinência de votar em Aécio Neves... Disse meu pai: Sendo você um banqueiro, grande industrial ou rentista é coerente que você vote em Aécio e no PSDB, pois são esses interesses que eles defendem”. Meu pai está certo, afinal o que é, não pode ser e não ser ao mesmo tempo e quem não é banqueiro, industrial ou rentista não poderia votar no candidato da atual UDN, salvo em estado de absoluta insanidade.

Ouvi ele dizer aos amigos que “Marina Silva e o PSB prestaram-se a ‘jogar o jogo’ dos setores mais conservadores e atrasados desse país, e isso é muito triste... Arraes deve estar constrangido no céu, ao lado de Jamil Haddad e Evandro Lins e Silva.”, eu acrescentaria outros socialistas que devem estar constrangidos e irados com a decisão dos neossocialistas, dentre eles o próprio Eduardo Campos.

Refleti também sobre quais seriam esses tais “setores conservadores” e conclui que meu pai refere-se aos banqueiros, industriais e rentistas (cujos compromissos são e estão distantes do interesse público), os mesmos que no passado "colaram" em Getúlio, JK, João Goulart o rótulo de "corruptos", para logo depois darem, em nome da defesa da democracia, golpes na própria democracia, são os mesmos hoje tão simpáticos à candidatura do PSDB.

Esse é o jogo da elite: a injuria, a desqualificação e o golpe. E essa gente está a construir um novo GOLPE à democracia.

Como fazem isso?

Estou a falar sobre a questão do “método” que a elite usa para engendrar seus golpes, ou seja, "MÉTODO" enquanto regras básicas, passos de como deve ser o procedimento a fim de produzir um certo resultado, para elas chegar ao poder numa democracia, mesmo não tendo votos.

Bem, quando grupos políticos, partidos, companhias de diversas áreas e a mídia corporativa unem-se, inconformados por não ocupar o centro do poder pelos mecanismos habituais do sistema político democrático (as eleições), seguem um caminho muito tortuoso em busca do poder, usam o GOLPE em suas várias faces.

Começam por transferir para os tribunais e para a tela da TV conflitos que são essencialmente ideológicos, ou mesmo meramente policiais, por meio de denúncias ao Ministério Público (e algumas vezes do próprio MP), ajuizando ações diversas, criando espetáculo midiático, um verdadeiro “big Brother”. O GOLPE começa ai, com o espetáculo midiático.

Ocorre a renúncia ao debate e sua substituição por um monólogo moralista que no passado deu ao país Jânio Quadros e Collor de Mello. É triste ver partidos e parlamentares renunciando ao debate democrático e deslocando para o Judiciário e para a mídia conflitos que não são, a priori, jurídicos ou judiciais, mas sim ideológicos. E é igualmente triste quando vemos o Ministério Público e órgãos do Poder Judiciário usar sua credibilidade e a credibilidade da imprensa para obter apoio da opinião pública para afirmação de suas convicções e teses, mesmo antes da conclusão de suas próprias investigações ou de uma sentença que a confirme. O que passa a importar é a denúncia em si, não o resultado final do processo.

E o objetivo dessa tática (transferir tudo para o Judiciário e usar a imprensa) é, por meio da exposição negativa de seus adversários, compensar a sua falta de votos.  E pasmem: qualquer que seja o desenlace da judicialização e da midiatização, pois enfraquecer, ou mesmo liquidar politicamente o adversário é o objetivo, sem qualquer zelo ético ou orientação democrática. A verdade é irrelevante, o que importa é desgastar o adversário.

No momento em que isso ocorre, a classe política, ou parte dela, tende a provocar convulsões sérias no sistema político, porque a renúncia ao debate democrático e a transformação da luta política em luta judicial e midiática, tendo como palco os jornais e a TV ao invés da tribuna do parlamento, enfraquece a Política e a Democracia. Enfraquecer a Política, os políticos e a democracia é outro passo importante do GOLPE.

Essa judicialização da política pode conduzir à politização da Justiça, que consiste num tipo de questionamento da justiça que põe em causa, não só a sua funcionalidade, como também a sua credibilidade, ao atribuir-lhe desígnios que violam as regras da separação dos poderes dos órgãos de soberania.

Ademais, a politização da Justiça coloca o sistema judicial numa situação de estresse institucional que, dependendo da forma como o gerir, tanto pode revelar dramaticamente a sua fraqueza, como a sua força.

A midiatização das investigações e das operações do Ministério Público busca transformar a plácida obscuridade dos processos judiciais na trepidante ribalta midiática dos dramas judiciais. Esta transformação é problemática em razão das evidentes diferenças entre a lógica da ação midiática, dominada por tempos instantâneos, e a lógica do processo judicial, dominada por tempos processuais lentos.

É certo que tanto a ação judicial como a ação midiática partilham o gosto pelas dicotomias drásticas entre ganhadores e perdedores. Mas, enquanto o primeiro exige prolongados procedimentos de contraditório e provas convincentes, a segunda dispensa tais exigências.

Em face disso, quando o conflito entre o judicial e o político ocorre na mídia, esta, longe de abranger veículos neutros, é um fator autônomo e importante do conflito. E, sendo assim, as iniciativas tomadas para atenuar ou regular o conflito entre o judicial e o político não terão qualquer eficácia se os meios de comunicação social não forem incluídos no pacto institucional. É preocupante que tal fato passe despercebido e que, com isso, se trivialize a lei da selva midiática em curso.

O uso do judiciário e da mídia, o deslocamento desmedido de questões políticas e policiais para o campo judicial e midiático revela ausência de espírito democrático de quem age assim e é, em tese, verdadeira litigância de má-fé e ausência de espírito republicano, é, enfim GOLPE.

E os golpistas de hoje (travestidos de democratas indignados), assim como seus interlocutores, estão irritados e se reúnam porque o governo brasileiro distribui renda (como no sistema escandinavo) a fim de sustentar um ainda tímido, mas necessário, “welfare state”, como fez Lula e faz Dilma com o Bolsa-Família. É contra políticas públicas como essas reúnem-se bacharéis e banqueiros, políticos, as empresas de comunicação, alguns jornalistas e inocentes úteis.

Não é sem proposito lembrar o apego que a elite tem pelo poder político e econômico... 

A História do Brasil nos dá exemplos. Antes de partir para Portugal o Rei D. João VI teria dito a seu filho que tomasse ele a coroa “antes que algum aventureiro lance mão” repetiu-se isso irrefletidamente como algo positivo ao longo do tempo, desde os bancos escolares. Mas quem eram os aventureiros? Os aventureiros éramos nós, o povo brasileiro. A gente como Tiradentes, Simon Bolívar, Artigas, Sucre, San Martin O´Higgins  a quem referiu-se D. João VI. Tiradentes e Simon Bolívar foram heróis que lideraram revoluções de independência nos seus países, expulsando os colonizadores em processos articulados dos países da região. Por conta dessa decisão da elite tivemos dois monarcas descendentes da família imperial portuguesas, ao invés de uma República, perdemos décadas de avanço institucional e atrasou-se a construção de um Estado Nacional independente, republicano, os nossos colonizadores não foram expulsos, mantiveram-se “pessoas de bem” e influenciam até hoje o país. Talvez esse tenha sido o primeiro pacto de elite da nossa história, no qual as elites mudaram a forma da dominação, para imprimir continuidade a ela, sob outra forma política. Naquele 1822 a monarquia ganhou quase sete décadas de sobrevida.

Ai vem o segundo pacto da elite: a República foi proclamada como um golpe militar, que a população assistiu “bestializada”, segundo um cronista da época, sem entender do que se tratava – o segundo grande pacto de elite, que marginalizou o povo das grandes transformações históricas. Sempre o povo a atrapalhar as “pessoas de bem”.
Outros pactos se seguiram a esses dois (a História está ai para ser conhecida e compreendida, vou escrever sobre eles um dia) e todos eles buscaram atender os interesses da elite nacional. Uma elite conservadora, preconceituosa e sem qualquer compromisso além da manutenção de seus privilégios, verdadeiros vassalos dos interesses estrangeiros.

Estamos vivendo mais um pacto da elite que busca, com o diligente concurso de parcela da mídia (que através da GLOBONEWS, da TV VEJA faz 24 horas por dia de propaganda contra o governo de esquerda), desqualificar o governo de esquerda, suas realizações e conquistas e criminalizá-lo. Reduzindo 12 anos de enormes conquistas a fatos e atos que estão sendo apurados de forma exemplar pela Policia Federal e pelo Ministério Público.

Mas voltemos a 1955… 

JK candidatou-se para suceder Vargas, e elegeu-se em três de outubro de 1955 e a empossou–se em 31 de janeiro do ano seguinte, mas JK teve de lidar com o ódio que a UDN – União Democrática Nacional endereçara a Vargas (UDN que, assim como o PSDB de hoje, representava interesses distantes dos nacionais e populares). A UDN constituía-se do velho resíduo do bacharelismo nacional, de origem oligárquica, que perdera sua posição hegemônica na sociedade, a partir da Revolução de 30, mais ou menos como o PSDB hoje.

Juscelino, médico, que fora um simples telegrafista e oficial da Força Pública de Minas, que provinha da “low middle class”, filho de uma professora e de um caixeiro-viajante morto aos 33 anos (que não pertencia, pela atividade, nem pela formação, ao setor da sociedade tradicionalmente ligado à velha aristocracia remanescente do Império, que a UDN representava e o PSDB é herdeiro legitimo) teve a ousadia de vencer as eleições.

Tivemos o metalúrgico e sindicalista que com mais evidência não pertence à classe representada por esse grupo, assim como a “terrorista”.

Após a vitória de JK teve início uma campanha para “colar” em Juscelino o rótulo de corrupto, como fizeram com Getúlio e depois com João Goulart, e agora no primeiro governo de esquerda do país. Não sou eu a dizer, é a História.

O “corrupto” Juscelino sofreu todas as perseguições conhecidas. Foi humilhado por interrogatório movido por oficiais inferiores. 

Reproduziu-se com JK, o que pretenderam os golpistas contra Getúlio, ao instaurar Inquérito Policial Militar em uma dependência da Força Aérea: a fim de o interrogar, julgar e condenar o Presidente – também sob o pretexto da corrupção – com o aplauso da UDN.

Pretendem fazer o mesmo com Lula, Dilma e com o PT.  

É nesse contexto [do GOLPE, ínsito à elite nacional] que devem ser compreendidos esses fatos todos, inclusive, a AP 470 que tramitou no STF, assim como a incansável campanha da imprensa conservadora contra o governo de esquerda.





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