sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

SOBRE AS CRITICAS À POLITICA ECONÔMICA DO GOVERNO.

O Brasil voltou a apresentar taxas de crescimento insatisfatórias. Os críticos do governo sentem-se vitoriosos com esse fato e segundo Bresser Pereira, representante do Novo Desenvolvimentismo, tudo indica que os quatro anos do governo Dilma as taxas serão semelhantes às dos governos FHC e, portanto, inferiores às do governo Lula.
Mas quem são os críticos? Ora, os economistas liberais que se aninham sob o teto do tucanato e voltam a fazer suas críticas à política que está sendo adotada.
Esses senhores fazem terrorismo econômico e não criticas necessárias e responsáveis, pois se o saldo entre importação e exportação caiu muito em 2013 e esse é o pior desempenho em 13 anos, “esquecem” de esclarecer que num mundo em crise a nossa balança comercial continua a ter saldo positivo de 2,56 bilhões de dólares e quando dizem que a venda de carros novos caiu 1,6% em 2013 e que esse é o primeiro recuo em dez anos também “esquecem” de dizer que em 2003 as vendas eram de 1,4 milhões, em 2013 foram de 3,5 milhões de veículos, ou seja: continua o terrorismo econômico, a mentira e a manipulação.
A crítica maior deles refere-se à (i) política industrial, critica injusta porque no governo Dilma foi fortemente ampliado o cuidado e apoio ao setor - por meio da desoneração de impostos. Mas há críticas relativas à (ii) diminuição do superávit primário e (iii) ao pequeno aumento da inflação (que continua dentro da meta).

Bem, lembrei que no final de 2012 li uma entrevista com o economista britânico Richard Layard que afirmava que governos responsáveis deveriam considerar a hipótese de incorrer em déficit para estimular a economia.
Recuperei o argumento de Layard e passo a compartilhar com o leitor, contextualizando: (a) em 2012 o desemprego na zona do Euro atingiu níveis recordes, (b) a recessão não era apenas uma possibilidade e (c) durante todo aquele ano cresceu a oposição política aos cortes de gastos defendidos pelo Banco Central Alemão.
E foi também em 2012 Tony Volpon, então diretor do Nomura Securities International, Inc.,num artigo interessante (‘O fim da era Lula na economia’) levantou, pelas suas razões e interesses, dúvidas a respeito do desempenho econômico do Brasil depois de Lula, mas é necessário registrar que ele coloca que o grande enfrentamento de Dilma é a realidade de um mundo com baixo crescimento e as grandes potências com seus interesses e crises para resolver.
Mas volto a Lorde Layard que afirmou, com todas as letras, que o receituário que prega (i) corte de gastos governamentais e (ii) aumento de impostos para reduzir o déficit público de alguns países levaria os países que o adotassem a um estado de recessão. Evidentemente ele falava da Europa, mas creio que o argumento é válido, pois a lógica que sustenta os defensores das chamadas políticas de austeridade é a lógica do mercado, a lógica neoliberal que levou muitos países aos caos e à recessão no mundo todo.
Meses antes dessa entrevista de Layard o economista Paul Krugman afirmara num dos seus artigos que começava a ouvir dos próprios defensores das políticas de austeridade que elas [as tais políticas] não estavam funcionando, mas que curiosamente nada ia mudar afirmava ele, pois grande parte da Europa e os EUA continuaria a praticar essa política que ele chamou de: destrutiva.
Política econômica Destrutiva? Sim, destrutiva porque segundo sua lógica os governos deveriam responder à recessão econômica, não da maneira que os manuais de economia orientam – gastando mais para compensar a queda da demanda privada – e, sim por meio de austeridade fiscal.
O que esperavam os “austeros”? Esperavam que as medidas de austeridade fossem inspiradoras de confiança e fomentassem a recuperação econômica. Mas não foi isso eu ocorreu em nenhum lugar e talvez por isso Lorde Layard afirmava que é errado sacrificar o emprego e a vida das pessoas em nome de uma certeza teórica de que fazendo “assim e não assado” seria mais eficiente a redução do déficit público, especialmente porque em toda periferia da Europa políticas de austeridade criaram crises econômicas. Aliás, sobre as crises Krugman diz terem se aproximado da depressão.
É isso que queremos para o Brasil? Penso que não, pois quando se fala controle do déficit público fala-se na realidade em orçamentos responsáveis e a maioria dos países tinha orçamentos responsáveis em 2008 e eles não impediram que dezenas de países fossem abraçados pela crise, pois a verdade incômoda é que a crise de 2007/2008, cujos efeitos vivemos até hoje, foi causada pela irresponsabilidade do setor privado na concessão e tomada de empréstimos e essa irresponsabilidade do “eficiente” e “moderno” setor financeiro (privado) levou ao colapso econômico, este levou á recessão e esta ao déficit público. O déficit é, portanto, conseqüência e não causa.
E Richard Layard sinalizou que os governos que continuassem insistindo em corte de gastos para o orçamento de 2013 estariam alimentando a recessão, pois o setor privado, sempre sensível às próprias “artes”, não estava investindo em lugar algum do mundo e o consumo interno dava sinais de contração, o que também alimenta a recessão, por isso os governos responsáveis não deveriam usar o (i) corte de gastos governamentais e (ii) aumento de impostos para reduzir o déficit público, pois eles são causadores de recessão e desemprego, salvo se estiver disposto a atuar para preencher o vazio que o mercado num cenário recessivo jamais vai preencher.
Penso que a opção do governo Dilma tenha sido incorrer em déficit, mas estimular a economia, garantir o emprego e a vida das pessoas. Afinal, afirmou o Professore Bresser, caso a presidente Dilma houvesse seguido os preceitos liberais no inicio do seu governo, os resultados, em termos de crescimento, seriam piores, porque o real estaria ainda mais apreciado do que está (não se pode esquecer que esse governo logrou desvalorizá-lo), a taxa de juros estaria muito maior do que a atual (a baixa alcançada inicialmente foi a grande vitória do governo, sendo o Professor Bresser), a política fiscal seria mais contracionista, e não haveria a política industrial por meio da qual o governo Dilma tentou compensar o câmbio ainda altamente valorizado.

E em termos de inflação os resultados seriam apenas um pouco melhores, porque sua política fiscal seria mais restritiva e seus juros seriam mais altos. Mas a melhoria seria pequena, porque o governo não mais contava com a arma que tanto liberais quanto desenvolvimentistas geralmente não resistem em usar para combatê-la: a apreciação cambial, a transformação da taxa de câmbio em âncora contra a inflação. Não mais contava com essa arma perversa porque o governo Lula deixou para sua sucessora uma taxa de câmbio incrivelmente apreciada: R$ 1,65 por dólar (ou, aos preços de hoje, R$ 1,85 por dólar). É por essas e outras que criticas devem ser responsáveis, sob pena de serem apenas panfletos desinformativos.

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