quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

"O MEDIADOR DEVE SER O CORAÇÃO!”


"Os shoppings-centers representam a ofensiva avassaladora contra os espaços públicos nas cidades, são o contraponto das praças públicas. São cápsulas espaciais condicionadas pela estética do mercado." (Emir Sader)

Aqui em casa somos todos cinéfilos. A cinefilia é o gosto pelo cinema e o interesse demonstrado por tudo àquilo que se relaciona com a sétima arte. As namoradas de meus filhos são submetidas à “prova da sala de TV”. Algumas são aprovadas, outras passam...  Bem, elas assistem “espontaneamente”, a trilogia de “O Poderoso Chefão”, “Matrix”, “Blade Runner”, “Metrópolis”, “O Clube da Luta”, “2001 - Uma Odisséia no Espaço”, “Laranja Mecânica”, “Os Incompreendidos”, dentre muitos outros, mas essa é outra história, depois eu conto...

Hoje quero falar sobre Metrópolis, que é um filme alemão de ficção científica produzido em 1927, realizado pelo cineasta austríaco Fritz Lang e que na época tratou-se da mais cara produção até então filmada na Europa (a obra que é considerada por especialistas um dos grandes expoentes do expressionismo alemão e também uma obra à frente do seu tempo, já que pode se dizer que continua bastante atual). O roteiro (baseado em romance de Thea von Harbou, esposa de Lang) foi escrito em parceria com Fritz Lang. O enredo é ambientado no século XXI, numa grande cidade governada autocraticamente por um poderoso empresário. E os seus colaboradores constituem a classe privilegiada, vivendo num jardim idílico, como Freder, único herdeiro do dirigente de Metropolis.

Os trabalhadores, ao contrário, são escravizados pelas máquinas, e condenados a viver e trabalhar em galerias no subsolo. Num meio de miséria entre os operários, uma jovem, Maria, destaca-se, exortando os trabalhadores a se organizarem para reivindicar seus direitos através de um escolhido que virá para representá-los.
Através de cenas de forte expressão visual, com o recurso a efeitos especiais, algumas se tornaram clássicas, como a panorâmica da cidade com os seus veículos voadores e passagens suspensas, há alusões bíblicas, mistério, ação e romance, num leque de informações visuais que envolvem o público e o mantém em suspense até ao final.
A obra apresenta uma preocupação crítica com a mecanização da vida industrial nos grandes centros urbanos, questionando a importância do sentimento humano, perdido no processo de desenvolvimento econômico. Como pano de fundo há a valorização da cultura, expressa no filme através da tecnologia e, principalmente, da arquitetura.
Retomo e comento a obra de Fritz Lang no contexto dos, tão comentados, “rolezinhos” e pergunto: estariam os jovens que organizam e participam dos “rolezinhos” agindo como a jovem Maria de Metropolis? Estariam esses jovens exortando os demais jovens a se organizarem e reivindicar o inalienável direito a espaços públicos de lazer e convivência?
Vivemos um tempo em que alguns juízes de São Paulo, Capital, que concederam liminares para que estabelecimentos comerciais possam escolher “quem pode ou não” entrar em suas dependências, oficializando uma política de segregação autorizando os suspeitos de rolezinho... E as liminares foram concedidas apesar da lei contra o preconceito ser clara e estabelecer penas de reclusão de até três anos para quem impedir o acesso de qualquer cliente a um local comercial. Penso que as tais liminares permitiram um retrocesso de 25 anos no País e esses senhores que as concederam serão julgados pela História.
Por que penso assim? Porque há uma grande dose de preconceito de classe nisso tudo, como retratado por Fritz Lang em Metropolis. Afinal qual o crime exatamente esses jovens comentem? A priori nenhum. Essa é a resposta honesta... Por isso andou mal o Judiciário e a saída não são liminares, não são também as bombas de gás lacrimogêneo, as bombas de efeito moral, as balas de borracha, truculência ou violação dos direitos civis usadas durante as manifestações do ano passado?  Somente quem defende um Apartheid social - que ainda impera em vários países e que existe dissimuladamente no Brasil – é que apóia a judicialização e imediata criminalização do fato.
O verdadeiro crime é a ausência de políticas sociais que incluam essa geração de jovens, que gere um leque de oportunidades, emancipação e autonomia. Esses jovens são diariamente excluídos do convívio social. Por isso afirmo: o verdadeiro crime é submeter a vida de todos nós à estética e à ética dos shoppings centers. Talvez o filme de Fritz Lang nos dê uma boa idéia do que fazer... O ponto alto do filme e grande mote é, sem dúvida, o final - onde a metáfora "O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração!" se concretiza no simbólico aperto de mão mediado por Freder entre Grot (líder dos trabalhadores) e Jon Fredersen - o empresário. 

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