domingo, 29 de dezembro de 2013

Depois de Maio, o mês de todos os possíveis.



O longa confirma o francês Olivier Assayas como um dos melhores realizadores em atividade no cinema contemporâneo, acabei de assistir e transcrevo abaixo texto de Walter Salles, que saberá, muito melhor do que eu, comentar o belíssimo filme.

"Maio de 1968 foi o mês de todos os possíveis. O ano em que se viveu apaixonadamente a política, a liberdade sexual, as novas formas de se pensar a cultura. O instante em que todas as certezas se evaporaram. Um turbilhão tão amplo que não parecia possível dar conta de todas as suas transgressões em um só filme. Foi preciso um cineasta da dimensão de Olivier Assayas para traduzir os anos que se seguiram a 1968 na tela. O filme, “Depois de maio”, acaba de estrear no Brasil.


Os primeiros planos nos projetam dentro do conflito que incendiou Paris e iria se espraiar para o mundo. A câmera na mão pulsa com Gilles (Clément Métayer), estudante secundarista em confronto com os CRS, a tropa de choque do governo conservador francês. É o início dos anos 1970, Gilles tem 17 anos e vive uma revolução dentro da revolução — a transição da adolescência para a idade adulta. Como seus amigos, Gilles tem mais perguntas do que respostas e um leque infinito de desejos. Interessa-se pela militância, mas também pela pintura e pelo rock progressivo. De Marx ao Velvet Underground, de Foucault a Nico, Gilles e Assayas vão nos revelando uma época em que tudo podia mudar a qualquer momento.

O que torna “Depois de maio” tão especial é justamente o fato de que o percurso iniciático de Gilles se confunde com as transformações do seu tempo. Não há mundos estanques. Até as possibilidades amorosas adquirem um caráter político-afetivo. Gilles é atraído ao mesmo tempo pelo hedonismo de Laure (Carole Combes) e pelo engajamento de Christine (Laura Creton). Assayas filma a vibração desses anos de forma radicalmente contemporânea, a câmera solidária a seus personagens, escapando dos perigos de um “filme de época”. Não há exibicionismos, planos ou cenas desnecessários. O que guia a narrativa é a emoção à flor da pele dos personagens.
Política filmada com leveza

Não há, também, romantização de um momento em que só o futuro parecia interessar. Quando as aulas acabam e Gilles e Christine viajam para Florença, uma cena dessa incursão rosseliniana traduz bem a inteligência do filme: um coletivo de cinema projeta em uma praça um filme convencional sobre algo que não o é — o desejo de transformação social. Essa contradição entre forma e conteúdo não passa despercebida pelo público. Uma discussão acalorada, salpicada de humor, aflora. Assayas filma a matéria política com leveza, sem pedagogismos ou nostalgia, o que confere uma qualidade rara a “Depois de maio”.

Se isso acontece, é porque “Depois de maio” nos revela um mundo que Assayas conhece bem. A raiz do filme é autobiográfica, baseada em um texto luminoso que Assayas escreveu, “Uma adolescência no pós-maio”, uma carta aberta para a viúva de Guy Debord — autor que influenciou profundamente o jovem Assayas. Em 1994, ele dirige um primeiro filme sobre esses verdes anos, “Eau froide”. Os personagens já tinham os nomes que Assayas retomaria mais tarde em “Depois de maio”.

Ode à juventude, retrato fascinante de um tempo em que Rimbaud, Bakunin e música psicodélica pareciam coexistir, “Depois de maio” também é um filme sobre a descoberta de uma vocação, a de Gilles pelo cinema. O filme confirma Olivier Assayas como um dos melhores realizadores em atividade no cinema contemporâneo. Seus filmes mais recentes, “Heure d'été”, “Carlos” e “Depois de maio" são incursões em gêneros diferentes, mas com traços em comum: a aguda inventividade e maturidade de seu diretor.

“Depois de maio" também mostra a que ponto a França se tornou o celeiro do cinema mais interessante e plural que se faz hoje. Da juventude de Resnais a Assayas, passando por diretores tão talentosos e singulares quanto Agnès Varda, Benoît Jacquot, Raymond Depardon, Leos Carax ou Philippe Garrel, a cinematografia francesa nos lembra que filmes podem ao mesmo tempo nos emocionar, entreter e ser um poderoso instrumento de compreensão do mundo. Nos tempos que correm, não é pouco."

*Walter Salles é cineasta



Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/depois-de-maio-um-filme-apaixonante-8254677#ixzz2otPbsVY0 


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