domingo, 27 de maio de 2012

para além da versão...


Li recentemente uma entrevista interessante[1] na qual Robert J. Shiller, economista, professor de Yale e que afirma que seu objetivo “não é defender os líderes de Wal Street”, mas sim, segundo ele, “sugerir alternativas que fortaleçam o capitalismo financeiro como instituição democrática”.

Com todo respeito ao “professor de Yale”, qualificação que tem vale muito no Brasil, não acredito que seja possível que qualquer tipo de capitalismo possa ser ou transformar-se numa “instituição democrática”. Como já escrevi baseado em Sygmund Bauman, “o capitalismo é um sistema parasitário” e, como todos os parasitas, prospera durante certo período desde que o organismo explorado lhe forneça alimento, mas é impossível a esse sistema prosperar sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade e sobrevivência.
E Bauman no seu “Capitalismo Parasitário” [2] lembra que Rosa Luxemburgo escreveu um estudo sobre a acumulação capitalista e nele afirma que a acumulação capitalista, categoria sobre a qual se sustenta o sistema, não pode sobreviver sem seguir descobrindo “terras virgens” para expandir-se e expandindo, conquistar, explorar até que suas fontes sejam exauridas.
O Professor Robert J. Shiller parece falar com o coração quando afirma acreditar que o “capitalismo financeiro tem o poder de transformar o mundo e a vida das pessoas.”, mas quando lembro que segundo Celso Furtado a transferência liquida de recursos do Brasil ao exterior na década de 80 foi maior que nos 322 anos do Brasil colônia[3], ou que o valor patrimonial contábil da VALE DO RIO DOCE era estimando em 140 bilhões de dólares, mas foi privatizada por FHC e José Serra por apenas 3,4 bilhões de reais (hoje 62% das ações da VALE pertencem a grupos internacionais e a empresa enviou às suas matrizes no exterior, a titulo de lucros e dividendos, 5 bilhões de dólares somente em 2010/11) não posso compartilhar com seu otimismo.
O “tsunami financeiro” que o mundo vive desde 2008 tem de ser entendido como o que é: o capitalismo não é um sistema que soluciona problemas sociais, ele os cria e não tem nenhum compromisso em solucioná-los, pois ele não consegue ser coerente com seus princípios e justo, democrático ou generoso. O Sistema capitalista é engenhoso, sedutor, criativo, mas não é justo nem democrático.
George Soros no artigo “The Crisis and What t Do Abou it[4] apresenta o capitalismo como uma sucessão de bolhas de aparente prosperidade, as quais se expandem muito além de sua capacidade e explodem. E explodem sem compromisso social ou político, devastando economias nacionais e criando dramas geracionais.
O Jornalista José Arbex Jr. No seu artigo “500 anos de falcatruas” [5] nos chama atenção para verdades desagradáveis de ler, mas são verdades, ultrapassam pela sua natureza a versão da conveniência.
Ler o texto de Arbex Jr me obrigou a ler novamente o capitulo 5 do livro “O Direito posto e o Direito Pressuposto” [6] do ex-ministro Eros Grau.
Eros Grau brilhantemente afirma que “O direito próprio ao modo de produção capitalista apresenta como peculiaridade, de uma parte, sua universalidade abstrata.”, e explica que as leis das sociedades capitalistas tutelam, protegem os bens, direitos e interesses privados e o próprio mercado, sendo que os direitos universais e abstratos das pessoas, eles são mantidos como pressuposto necessário à validação do modo de produção capitalista.
Sendo que a tal igualdade perante a lei, a própria legalidade e a liberdade estão relacionadas ao conceito de Estado capitalista, e a ele incumbe tutelar para que as instituições garantam, legalizem e legitimem a ação própria do sistema, sem compromisso com a Justiça ou com a Humanidade.
O que fazer? Bem, a primeira tarefa é compreender a História, o encadeamento dos fatos, compreender a realidade sistêmica, para após levar à sociedade o inconformismo da necessária mudança, sempre de forma genuinamente democrática.


[1] Valor EU&FIM DE SEMANA, 20 de maio de 2012, p. 25
[2] Capitalismo Parasitário, p. 8, Ed. Zahar, 2009.
[3] Conf. João Pedro Stedille no artigo “O Maior saque colonial”, na Revista Caros amigos, n. 182/2012
[4] In “New York Books Review”, de 4 de dezembro de 2008
[5] Revista Caros amigos, n. 182/2012, p. 6/7
[6] Editora Malheiros, 3ª. edição, p. 83 e seguintes.

2 comentários:

  1. O capitalismo e a democracia caminham juntos. Célia Maciel

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  2. Zuzu,
    Vc não concordou com a hipótese básica do artigo... Mas tudo bem.

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