sábado, 21 de novembro de 2009

Barbárie e Big Brother, Correio Popular, 6/3/2003


O fenômeno de audiência verificado no programa “Big Brother” da Rede Globo surpreende, como professor ou estudante, pela ausência absoluta de conteúdo e imensa inutilidade. Eu me pergunto: como é possível algo sem conteúdo, forma ou objetivo claro despertar tamanho interesse nos telespectadores? Bem, acho que Paul Ricouer na sua obra “Interpretação e Ideologias”, nos dá uma boa pista, vivemos uma época de absoluta ausência de um projeto coletivo em nossas sociedades.

Aos povos, às sociedades subdesenvolvidas é dado o frágil direito de sonhar a equiparar-se aos Estados desenvolvidos, e a estes resta o aniquilamento das normas e o esquecimento das heranças culturais. Ou seja, os Estados, as sociedades subdesenvolvidas almejam equiparar-se a Estados que vivem a desconstrução de suas tradições, um tempo de diluição dos valores, um fenômeno que o filósofo francês chama de “esgotamento” da vida industrial avançada. Ou seja, há uma inegável contradição em curso que decorre da ausência de projeto coletivo, de um lado, e da exaustão do projeto de outra banda...

O “Big Brother” reflete a absoluta ausência de projeto social, ausência de projeto de atuação individual na sociedade, uma atuação capaz de conhecer e transformar evolutivamente as relações tornando-as generosas e grandiosas. Valoriza o egoísmo.

O mérito – se é que isso é meritório – do programa é, a meu ver, a capacidade de perceber essa ausência, preenchendo-a com um entretenimento barato e bárbaro. Bárbaro sim, trata-se da barbárie interior, da perda do sentido do início da civilização, é reflexo do fim da história, negação da arte, falência da metafísica .... Programas como esse negam o sentido e a possibilidade de se começarmos coisas novas, porque nada é proposto, tudo é posto, não há criação, mas submissão à mediocridade.

Além da barbárie interior está presente, de forma inexorável, a “morte de Deus” e a própria “morte do homem”. O programa submete os valores às regras, mesmo que cruéis, tudo vale a pena pelo prêmio... O prêmio? Dinheiro.

É verdadeira agressão às inteligências, é usurpador das possibilidades, é quase um delito, moral e ético, para o qual não há hipótese legal ou conseqüência jurídica imediatas, mas conseqüências que decorrem dessa elevação do que é baixo, um niilismo negativo.

O que é dito, o que é passado ao telespectador como bom e válido é a submissão do indivíduo, da personalidade ao personagem, da vida à morte, temos a destruição da razão. Isso é barbárie. Disso nós não precisamos. Este programa é um desserviço à construção de uma consciência livre, libertadora, libertária e construtiva.

É valorizada a regressão do “eu” ao exterior do homem, e o humanismo, contraponto do barbárie, é desconsiderado.

Há ainda a barbárie dos sentidos (feritas), onde vivemos a destruição da possibilidade da percepção dos demais prismas que a existência proporciona a cada um e a todos; mais, temos a barbárie decorrente da ausência de reflexão, onde as “pessoas comuns” afirmam, pelas suas ações, a perda do sentido da existência, há uma inegável vacuidade... Assistir esse programa é como passear num shopping senter ou comprar uma roupa de “grife”... Não há qualquer sentido nisso, é a deserção do indivíduo.

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