terça-feira, 21 de abril de 2009

A LULA E A BALEIA

Outro filme que assisti nesse feriado foi THE SQUID AND THE WHALE, EUA, 2005, de Noah Baumbach, que conta com Jeff Daniels, Laura Linney, Jesse Eisenberg, Owen Kline, William Baldwin e Anna Paquin no elenco, vale a pena conferir.

Transcrevo abaixo uma critica bem legal sobre o filme.

"Um jogo de tênis abre A LULA E A BALEIA e, como em MATCH POINT de Woody Allen, funciona como uma metáfora sobre o que virá em seguida. Enquanto Allen refletia sobre a relatividade da sorte, o diretor e roteirista Noah Baumbach prenuncia a guerra que está prestes a ser declarada entre Bernard (Jeff Daniels, ótimo) e Joan Berkman (a sempre competente Laura Linney).
Casados há 17 anos, vêem seu relacionamento deteriorando desde que Joan resolveu seguir os passos do marido e ingressar na carreira literária. A separação culminante é antecipada no jogo da abertura, assim como a tomada de posição entre os dois filhos, Walt (Jesse Eisenberg) e o caçula Frank (Owen Kline, filho de Kevin Kline e Phoebe Cates). O primeiro fica imediatamente do lado do pai, na quadra e no rompimento, enquanto Frank defende como pode a mãe.

Bernard, um escritor conceituado, mas ruim de vendas, o que na América configura em um perdedor, vê sua mulher alcançar o sucesso comercial que ele nunca experimentou. Há anos sem publicar um livro, sobrevive dando aulas de literatura. Já Joan desconta a frustração colecionando amantes na vizinhança. Os garotos ficam no meio da batalha, e, revezando-se entre as casas de ambos (“Custódia compartilhada é uma droga”, diz um colega de Walt, veterano de pais separados), aos poucos tomam posição e escolhem seus lados. Mas ainda assim terminam como baixas de guerra: enquanto Frank passa o tempo sozinho experimentando cerveja e outras bebidas alcoólicas, Walt se espelha no pai para criar uma imagem de intelectual que não corresponde à realidade. Até mesmo suas opiniões refletem as de seu progenitor.
Em um jantar familiar antes da separação, Bernard comenta com Walt que UM CONTO DE DUAS CIDADES é um Dickens menor, ao passo de que Joan o aconselha a conferir por ele mesmo. “Não quero perder meu tempo”, responde o garoto. Posteriormente, indica a uma namorada A METAMORFOSE só de ouvir o pai elogiar. Quando a tal garota vem comentar com ele sobre o livro, Walt só consegue observar que a obra “é bem kafkaniana”. O auge dessa farsa é quando Walt se apropria de uma letra do Pink Floyd e apresenta a canção num concurso escolar como se fosse composição sua.

Esse comportamento não é necessariamente conseqüência da separação dos pais, mas pode muito bem ter se originado na crise que já se estabelecia entre o casal. Baumbach sugere esta possibilidade em diálogos inteligentes e comentários saborosos, como os que Bernard despeja sobre seus filhos. Desprezando um dos amantes de sua ex-mulher, diz que “ele é um sujeito normal, não é um intelectual”. Em outro momento, explica à Frank que “Filisteus são aqueles que não curtem livros e filmes interessantes”, ao que o garoto humildemente responde: “Então acho que sou um filisteu”.

É através do ponto de vista dos garotos que a história será contada, o que permite uma leitura autobiográfica, acentuada pelo fato do cineasta situar a trama em meados da década de 80. E o faz com uma reconstituição impecável e ótimo senso de atmosfera. Baumbach captura suas imagens como se fosse um filme caseiro, com tons amarelados de um negativo vencido, aumentando a sensação de intimidade, como se estivéssemos presenciando a dinâmica daquela família de dentro. Baumbach demonstra um talento especial para construir personagens plausíveis, algo que não se percebe com a mesma clareza no trabalho do superestimado diretor Wes Anderson (que aqui atua como produtor), com quem colaborou em A VIDA MARINHA COM STEVE ZISSOU.

O título se explica por um trauma de infância de Walt. Quando criança, era levado pela mãe para visitar o Museu de História Natural, onde se encontra uma estátua reproduzindo a luta entre uma lula gigante e uma baleia, algo que amedrontava Walt a ponto deste tapar os olhos com as mãos. Após presenciar o embate paterno, a tal luta já não parece tão aterrorizante."

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